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BURRO VELHO

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31
Mar23

Cada tiro cada melro - Carlos Moedas

BURRO VELHO

Moedas_residencia

 

Esta trapalhada já tem alguns dias mas não resisto: não é tanto pela residência universitária em si, ao que parece trata-se de um investimento totalmente privado e é natural que haja oferta para os vários segmentos da procura, mas o que terá passado pela cabeça de Carlos Moedas, e de quem o aconselha, a ir inaugurar um espaço já aberto há vários meses em que um estudante paga, no mínimo, uma renda de 700€ mensais por um quarto? Nesta altura de tanta contestação social e em que o tema da habitação angustia tanto os portugueses, é óbvio que ia sair chamuscado, isto não é só desnorte, é pior do que isso, é mais um sinal de que a sede de propaganda e protagonismo é tão forte (não é único, veja-se ainda ontem o Governo a lançar a primeira pedra dum prédio habitacional em Almada) que lhe turva por completo a realidade - o que importa é aparecer nas televisões, pena é que fique sempre tão mal na fotografia.

30
Mar23

Sobre coisas da ética - Ana Obregón

BURRO VELHO

AnaObregon

 

A polémica está instalada em Espanha, depois de ter perdido o seu único filho, vítima de cancro, a atriz espanhola Ana Obregón, de 68 anos, anunciou que não voltará a viver sozinha pois acabou de ser mãe duma menina, fruto duma barriga de aluguer.

Não partilho a visão restrita da lei dos nossos vizinhos, onde a gestação por substituição é terminantemente ilegal, seja ela remunerada ou altruísta, por ser uma manifesta violência contra as mulheres, sobretudo para as mais indefesas em risco de pobreza.

Aproximo-me mais dos termos da lei que vigora em Portugal, em que as barrigas de aluguer só são permitidas a casais hétero ou de duas mulheres, em que estas não têm útero viável (ou outras situações clínicas que impeçam a gravidez), não podendo existir em qualquer circunstância um pagamento ou doação, nem existir subordinação económica entre a gestante e os futuros pais e/ou mães.

Nesta notícia, parece implícito que o óvulo que fecundou a mãe emprestada era da própria Ana Obregón, condição necessária para estarmos a falar duma gestação de substituição, caso contrário estaríamos perante uma mera adoção, ficando no entanto a dúvida se esta recém mamã tinha preservado ovócitos viáveis, quando ainda nada apontaria para o desfecho fatal do seu filho agora falecido, contudo, para a discussão que urge não me interessa especialmente saber se o material genético usado nesta gravidez é ou não da própria atriz.

Interessa-me mais a discussão relacionada com a ética desta gravidez de aluguer.

Quando algumas celebridades anunciaram que foram pais ou mães com recurso a uma gestação por substituição, as nossas sirenes da ética não soaram, vejam-se os casos de Cristiano Ronaldo, da empresária Paula Amorim ou mais recentemente do encenador Pedro Penim.

Fora desta discussão das barrigas de aluguer, e no contexto duma gravidez natural, quando um homem com 70 ou 80 anos anuncia que vai ser pai também não me recordo de ver parangonas nos jornais a discutir a bondade dessa paternidade tardia.

Por outro lado, não evito deixar de pensar se esta mãe em idade avançada, nalgum momento pensou que para combater o seu luto e solidão iria causar sofrimento precoce nesta criança, que necessariamente perderá a mãe numa idade em que a morte da mãe será ainda mais traumática?

A meu ver, uma gravidez de aluguer não deverá ser para combater o luto duma perda trágica de quem seguramente já não tem uma idade razoável para ser pai ou mãe, mas também tenho dúvidas que uma pessoa tenha os seus direitos diminuídos por ser mulher e não ser jovem.

Lançada a polémica, que fique a reflexão, que será, certamente, controversa.

29
Mar23

Tá tudo doido - pornografia renascentista

BURRO VELHO

miguelangelo_pornografia

 

Ainda acreditamos que neste canto da Europa Ocidental somos todos evoluídos e que as bizarrias vindas dos EUA, sempre pródigos em nos dar o melhor e o pior, são apenas bizarrias que só são possíveis nos EUA.

Num colégio de Miami, um grupo de pais de alunos dos quinto e sexto ano, insurgiram-se com a professora de história de arte por ter mostrado aos alunos a estátua de David, de Michelangelo, pornografia, disseram – pasme-se! E a professora foi mesmo forçada a demitir-se.

Estes tempos andam mesmo baralhados, esperemos que aqueles célebres pais de Famalicão e seus seguidores andem distraídos e que esta moda não pegue deste lado do Atlântico.

28
Mar23

Tá tudo doido - o cancelamento de Enid Blyton e outros que tais

BURRO VELHO

enidBlyton

 

Algumas cabeças pensantes e as bibliotecas do município de Denver, no Reino Unido – sim, no baluarte do nosso mundo ocidental -, acreditam que a escritora inglesa de livros infantis Enid Blyton, que todos conhecemos e lemos em ‘Os cinco’ e ‘Noddy’, é uma ameaça para as indefesas crianças que possam requisitar os seus livros, os meninos e meninas correm o perigo de se mutarem em adultos perturbados por lerem tais ignomínias, sim porque Blyton foi a rainha da linguagem abusiva e usou expressões como ‘gay’ e ‘cala a boca’, que insanidade.

Então vai daí e o que acharam que era bem feito? Não retirar definitivamente os livros porque isso podia ser mal interpretado, e trazer-lhes chatices, mas recolher os livros para uma parte pouco acessível da biblioteca, e se ainda assim alguma criança tresmalhada insistir em ler alguma aventura da Zé e dos amigos, então o bibliotecário vem ao seu encalço para lhe explicar o perigo em que incorre, em simultâneo lançaram novas edições em que reescreveram a história com termos mais inofensivos.

Isto é de bradar aos céus.

Não vou tanto pelo lado que é preciso contextualizar o momento histórico em que a escritora viveu e que na altura haviam coisas consideradas aceitáveis que hoje, e bem, já não consideramos, chama-se a isto o avanço civilizacional, não vou tanto pelo lado que todos nós temos centenas de exemplos de crueldades atrozes das histórias e dos desenhos animados da nossa infância, e não foi por isso que nos tornámos más pessoas, não vou tanto pelo lado que para a educação da criança contribuem muitas coisas diferentes e que os pais têm um papel determinante nessa educação, para mim o assunto morre muito antes disso.

A liberdade de discurso e a criatividade artística não devem ser postas em causa, cabe à sociedade fazer os seus próprios juízos e ignorar ou rejeitar aquilo que não lhe interessa, cabe à sociedade achar que os livros da Enid Blyton se calhar envelheceram mal e hoje não têm assim tanto interesse e deixar de os requisitar nas bibliotecas ou os comprar nas livrarias, mas em momento algum o Estado ou alguém se pode arrogar o direito de torpedear uma obra artística e de ser o fiel da balança entre o bem e o mal, do certo e do errado, quem é que decide quais são as palavras aceitáveis nos livros que damos às nossas crianças para lerem?

Esta política do cancelamento dos nossos dias é absolutamente inusitada e assustadora, Agatha Christie, Ian Fleming ou Roald Dahl são outros exemplos, mas infelizmente o cardápio dos cancelamentos vai muito mais além do mundo dos livros - do cinema à música passando pela história e até pelos jardins brasonados -, e citando o poeta alemão Heinrich Heine que nestes dias tem sido muito citado a propósito desta polémica, assumo aqui a falta de originalidade, ONDE DE QUEIMAM LIVROS ACABAM A QUEIMAR-SE PESSOAS.

27
Mar23

Da atualidade política - Almirante Gouveia e Melo

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Em boa hora o Governo o foi buscar para coordenador da logística das Vacinas na pandemia, não façam dele o salvador da pátria mas o mérito não lhe pode ser negado, mas o ego, a forma inflamada como deve gostar de ser ver ao espelho e a ambição do senhor Almirante são perturbantes, o raspanete à guarnição do Mondego dado às televisões afirmando que ele próprio, não a Marinha mas sua sumidade, não permite faltas de autoridade é bem revelador do que já há muito percebemos.

Parece que as sondagens para as presidenciais são muitíssimo promissoras, mas eu cá continuo a acreditar que o bom senso vai persistir e que vamos continuar sem militares com esse protagonismo político.

26
Mar23

Da atualidade internacional - Israel

BURRO VELHO

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Israel, país sempre nevrálgico para a paz no mundo, ou falta dela, está à beira de deixar de ser uma democracia e se converter numa ditadura.

Benjamin Netanyahu, ultra direitista e com grande probabilidade de vir a ser condenado culpado em vários casos de corrupção, conseguiu que o seu Governo tivesse aprovado esta semana uma lei que retira aos tribunais o direito de o destituir do poder, reforçando a sua estratégia de ter o poder político a interferir no poder judicial.

Pode ser que a forte contestação que está a surgir tenha força para o demover, das pessoas nas ruas, da procuradora geral da república, de algumas forças especiais ou até membros do Governo, mas para já Netanyahu não dá sinais de recuar e promete até novas medidas. Medo!

25
Mar23

Dos espetáculos de que gosto - Na Colónia Penal

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Gesamtkunstwerk é um palavrão em alemão que se aplica à ópera e que quer dizer, obra total, porque conjuga muitas artes numa só arte, música, canto, teatro, dança, literatura e artes plásticas - NA COLÓNIA PENAL é uma ópera contemporânea (cantada em inglês) de Philip Glass, o mestre do minimal repetitivo, com base num conto de Kafka e adaptação do libreto dum senhor chamado Wurlitzer, aqui com direção musical de Miguel Sousa Tavares, encenação de Miguelinho Loureiro e movimento do meu querido amigo Miguel Pereira.

Há espetáculos em que nos deixamos arrebatar por tudo em simultâneo, há outros que gostamos mais dumas coisas do que outras, estabelecemos mais conexão com isto e menos com aquilo, e contendo a ópera tantas artes dentro de si mais facilmente isso pode acontecer, sobretudo nas contemporâneas, e quando tal acontece continua a ser bom na mesma se nos permitirmos apreciar e admirar aquilo que nos faz gostar mais, assim foi comigo e com este Na Colónia Penal.

O texto é riquíssimo, toca nas dualidades do ser humano, na nossa capacidade de sermos tiranos e implacáveis, ou coniventes com a tirania e maldade, e logo a seguir sermos tocados pela compaixão, é um texto negro, onde há maldade mas não há culpados, há dúvida, sempre a dúvida, e vem do Kafka, temos génio aqui, por isso não me ficará muito bem dizer isto, mas não me entusiasmei por aí além com o texto, achei a forma muito naif, shame on me mas no meu caso o sentido metafórico da coisa esbarrou numa quase infantilidade do texto.

Sobre os dois cantores, cumpriram, foram honestos, este qualificativo simpático que quase sempre é mais depreciativo do que elogioso, mas estiveram longe de me deixar com pele de galinha, tendo achado os performers sem texto mais convincentes, penso que a atenção do meu olhar ia mais na direção destes.

Gostei muito da dança, ou do movimento se quisermos ser mais softs porque não vemos dançar dançar, e da música, algumas vezes fechei os olhos para me deixar levar pelo ambiente criado pela mini orquestra de câmara, muito bom.

Ainda no São Luiz, e em breve no Porto, creio.

24
Mar23

Da TV de que eu gosto - Primeira Pessoa

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A jornalista Fátima Campos Ferreira nunca me suscitou nem grande empatia nem nenhuma espécie de embirração, pouquíssimas vezes terei visto o seu Prós e Contras, recordo-me de um mais polémico em que a Lídia Jorge quase despachava um par de galhetas à Cátia Guerreiro, nunca me interessou aquele conceito de querer dar voz a todos em que toda a gente tinha uma opinião para dar e não havia tempo para se debater calmamente assunto nenhum.

Agora em Primeira Pessoa, Fátima Campos Ferreira sente-se confortável em entrevistar seja quem for, e no seu estilo muito enfático, quase teatral (num Prós e Contras não acharia piada, aqui acho que funciona bem), escolhe os seus entrevistados a dedo e entre cenários intimistas e improváveis para o espectador, sem pressa, oferece-nos conversas curtas e muito interessantes

 

 

23
Mar23

Do país que temos - Lei dos Metadados

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metadados

 

Metadados são informações que permitem a identificação e localização de comunicações eletrónicas (nomeadamente telefonemas, chamadas de vídeo, sms e emails), sem acesso aos respetivos conteúdos, os metadados não revelam o teor dessas comunicações, não são escutas telefónicas, isso são contas doutro rosário.

Aqui há uns meses veio o Tribunal Constitucional declarar inconstitucional uma Lei que dava acesso às autoridades judiciais (e apenas a estas, claro está), para efeitos de investigação criminal, aos metadados de todas as comunicações efetuadas nos seis meses anteriores (ou seja, todas e quaisquer comunicações de qualquer um de nós), entendeu o TC que a lei ‘restringia de modo desproporcionado os direitos à reserva da intimidade da vida privada’, um pouco em linha com a jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeu, note-se.

Este veto não impede o acesso aos dados das comunicações que venham a acontecer a partir do momento em que um juiz o autoriza, mas impede, e torna ilegal, todos os meios de prova que foram recolhidos com base em dados ocorridos nos tais seis meses anteriores à investigação, fazendo que pessoas já condenadas tenham de ser libertadas por ilegalidade dos meios de prova, ou pondo inclusivamente em risco os processos da Operação Marquês ou do Caso BES, valha-nos nossa senhora.

Parece que este imbróglio legislativo não vai ter solução tão cedo, é necessária uma revisão da Constituição, ou quiçá uma solução ao nível da Comissão Europeia, e se nesta matéria específica talvez PS e PSD não estejam assim tão distantes, os trabalhos de revisão da Constituição, no seu todo, ainda só agora vão no adro e tão cedo não teremos fim à vista.

Sim, nenhum de nós quer viver num estado policial e que o nosso direito à privacidade seja posto em causa, mas nenhum dos direitos fundamentais é absoluto e, além de um maior interesse coletivo de segurança (vejam-se situações de terrorismo), no limite são os nossos próprios direitos individuais que são postos em cheque, se eu for raptado o Estado não assegura que as autoridades tenham todos os meios necessários para me resgatar para, contrassenso dos contrassensos, proteger a minha privacidade.

Estamos a falar de matérias fundamentais e de equilíbrios muito difíceis, mas senhores deputados, façam depressa o vosso trabalho, afinal foi para isso que vos elegemos.

22
Mar23

Das séries de que gosto - A vida mentirosa dos adultos

BURRO VELHO

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Só o facto de ser passada em Nápoles já é meio caminho andado para se ver, mas ‘La vita bugiarda degli adulti’, que é como quem diz, ‘A vida mentirosa dos adultos’, é mais uma série a partir da obra da genial Elena Ferrante, e por sinal é também muito boa, para quem tem preguiça de ler o livro a série não lhe fica muito atrás.

As mentiras que os adultos inventam para iludir as crianças, e sobretudo a eles próprios, têm normalmente consequências, assim acontece nesta história que testemunha o fim duma adolescência dividida entre uma cidade abastada e outra pobre, distante e totalmente desconhecida, entre a classe operária que se desenrasca para sobreviver e uma burguesia outrora revolucionária.

Aqui não há peripécias, piruetas nem nenhum suspense de nos prender a respiração, aqui vemos só personagens a viver e discutir a sua vida o melhor que sabem. Na Netflix.

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