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BURRO VELHO

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23
Nov23

Dos filmes de que eu gosto - Céu em Chamas, de Christian Petzold

BURRO VELHO

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Não farão por mal, nasceram assim e têm dificuldade em fazer melhor, mas há pessoas amargas que estão sempre de sobrolho levantado e que só sabem lamentar-se para sugar a energia dos outros, que nunca conseguem desfrutar um momento por terem um nariz tão empinado, será que algum dia conseguirão perceber que não vale a pena ser assim?

O filme passa-se no norte da Alemanha junto à costa do mar Báltico, numa zona florestal que está a ser assolada por incêndios, facto que dá o título ao filme, CÉU EM CHAMAS (Roten Himmel, no original), e começando pelo que menos gostei, claramente Christian Petzold desconhece a ameaça de um incêndio florestal descontrolado, não sabe que o ar é quase irrespirável, que o fumo quase sufoca, que o perigo entranha-se na pele e não dá tréguas, e esse espectro ameaçador dos fogos é altamente inverosímil no filme (o que até se compreende porque grandes fogos florestais na Alemanha são um fenómeno raro), e não senti só falta desse sobressalto, senti falta de mais alguma inquietação nas personagens, mais sangue na guelra, mas não nos podemos esquecer que aqueles jovens não são do sul da europa mas sim de uma contida alemã protestante.

Neste filme plácido e bucólico, Leon é um filho típico dessa cultura protestante, para quem o dever e o trabalho estão sempre em primeiro lugar, para quem a culpa é sempre um fardo pesado que tem de carregar, para quem a ética e o carácter são pontos de honra e a inveja de quem vive de forma mais lúdica e despreocupada acaba por ser inevitável, e quando Leon está de férias com três outros jovens, leves e frescos, não consegue controlar os seus ciúmes e frustrações, sofrendo por desperdiçar todos os momentos em que os outros tentam resgatá-lo para um sorriso, entrando numa espiral quase destrutiva, da arrogância à amargura, da amargura ao isolamento, do isolamento à solidão, e por aí fora sempre em declínio.

Tal como habitual nos seus filmes, Petzold oferece-nos um twist dramático e inesperado no final, dando a possibilidade ao espetador de escolher, sem juízos ou moralismos, se essa pessoa encontra a redenção ou persegue no caminho da sobranceria e solidão.

Se Thomas Schubert é excelente com o seu Leon, Paula Beer (sempre presente nos filmes de Petzold) rouba todas as cenas com uma presença absolutamente solar. Bom filme este CÉU EM CHAMAS, vencedor do grande prémio do júri do festival de Berlim de 2023.

 

23
Nov23

Dos meus livros - Memória de Rapariga, de Annie Ernaux

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Annie Ernaux escreve histórias assumidamente sobre si própria e foi adiando o regresso à jovem e inocente rapariga que no verão de 1958 quis viver os seus sonhos de forma desfrenada e às cicatrizes que lhe deixou marcas nos dois anos seguintes, que terá deixado toda uma vida, e só agora (em 2014), ao fim de 56 anos, teve capacidade para recordar e conseguir superar o que havia dentro de si para superar.

Ultimamente tenho regressado livro sim livro não a Ernaux, quase que tenho feito um pingue pongue entre Ernaux e Barnes e sinto agora necessidade de lhes fazer uma pausa e ler outras coisas, mas Memória de Rapariga é Ernaux como só assim Ernaux saber ser, corajosa, empoderada e torrencial na forma despudorada como alterna a sensibilidade com a aspereza duma faca afiada.

 

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