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BURRO VELHO

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07
Nov23

Está mal - a infâmia das Raspadinhas

BURRO VELHO

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É conhecido que as raspadinhas são uma praga social e um aflitivo problema de saúde mental pela dependência que causa, pior do que isso, como diz Luís Aguiar-Conraria no Expresso, são verdadeiramente amorais porque é uma forma do Estado sacar dinheiro aos pobres e desfavorecidos, sim porque as receitas dos jogos de Santa Casa ou revertem diretamente para o Estado (em 78% do seu montante), ou então financiam a própria Santa Casa que assegura funções do Estado Social na região de Lisboa.

A nova provedora Ana Jorge lava as suas mãos como Pilatos ao reconhecer que o mal está feito e se a benemérita Santa Casa renunciasse às ditas o vício manter-se-ia mas a benefícios de outros, por isso há que surfar na crista da onda e aprovar a venda de mais uma raspadinha europeia, a Eurodreams, que vai trazer uma prometida subsistência mensal a muitos jovens crédulos, conseguindo assim o Estado arrecadar mais uns trocos aos pobres viciados e dependentes, isto é INFAME.

Ana Jorge vai mais longe ainda, reconhecendo que a Santa Casa não tem a maioria da quota de mercado dos jogos de azar, e como tal, advoga, “temos de ser mais concorrenciais”.

Resolver esta problema não será fácil, mas ao menos que houvesse vontade política e institucional para o combater ou atenuar, mas ao contrário o que vemos é a Santa Casa e o Estado lançarem mais achas para a fogueira e cavarem ainda mais o poço destes infelizes, e à sua custa encherem os cofres, isto é tão mau mas tão mau que nos deve inquietar a todos.

 

06
Nov23

Das lendas vivas - Madonna e a sua Celebration Tour

BURRO VELHO

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Assim que ouço muitas das suas canções sou capaz de começar logo a trauteá-las e menear os ombros num qualquer tímido passo de dança, ainda assim creio que tenho apenas uma música sua nas infindáveis horas das minhas listas Spotify, Live to Tell, não tenho muito o hábito de a ouvir, claro, ‘sabemos’ todos que não é uma cantora dona dos graves mais bonitos e de agudos lá nas alturas, e se falarmos dos seus dotes de atriz então ainda é pior a emenda que o soneto, mas a lendária e super icónica Madonna é das artistas que mais admiro, a verdadeira rainha da Pop, pela enorme performer que ela é mas também, sobretudo, por ser absolutamente inspiradora, uma miúda sonhadora e ambiciosa, ousada e provocadora, que quando chegou a Nova Iorque, no final dos anos 70, teve de namorar com rapazes que tinham chuveiro em casa para conseguir tomar banho, e que, marimbando-se sempre para as críticas, tornou-se numa voz planetária sempre a lutar pelos direitos humanos do lado certo da história, sempre a defender os doentes com SIDA, a proteger as minorias ou na emancipação das mulheres, como esquecer por exemplo aquela noite dos grammys em 2014, em que juntamente com Macklemore e Queen Latifah patrocinou o casamento de 34 casais, straight e gay, numa altura em que a lei ainda não o permitia em muitos estados norte-americanos.

Num dia de junho de 2012, de má memória para mim, tinha eu dois bilhetes para a ir ver a Coimbra e fiquei em casa com os ingressos na mão, não estava escrito que assim fosse, mas o que eu gostaria de estar hoje ou amanhã no Altice Arena, Lisboa, a vê-la a celebrar 40 anos de carreira com a sua Celebration Tour. Congrats Madonna!

 

04
Nov23

Das coisas bonitas - Mozart e os concertos na Gulbenkian

BURRO VELHO

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Terminar um dia ou uma semana de trabalho e ir assistir, ao início da noite, a um concerto de música clássica à Gulbenkian é um luxo e um enorme privilégio, mesmo que não chegássemos sequer a ouvir a música, toda a atmosfera envolvente já é um bálsamo para os sentidos, todos os rituais de todas aquelas pessoas das mais variadas tribos, sejam elas as octogenárias de capacete montado, sejam os trintões de botifarras com o capacete debaixo do braço, tudo ali respira civilização, bem ou mal vestidos chegamos a crer que não há no mundo quem cuspa para o chão, coce os tintins ou solte um catarro durante um concerto, ali não se sussurra nem se lê as mensagens do telemóvel, ali quando ao intervalo se come uma mini sanduíche de salmão com um copo de vinho branco sentimos uma indisfarçável joie de vivre.

E quando começa a música então é a felicidade, no caso duas horas de puro êxtase, num silêncio imóvel, a ouvir o coro e a orquestra da Gulbenkian, com direção do maestro holandês Ton Koopman (que senhor tão castiço e amoroso) a tocarem a Sinfonia n.º 36 e a Grande Missa de Mozart, com as sopranos portuguesas Sara Braga Simões e Leonor Amaral e um barítono e tenor de nomes difíceis de reproduzir (Tilman Lichdi e Arvid Eriksson), tão bonito que foi.

Felizes de nós aqueles a quem nos é permitido encontrar felicidade em coisas tão diferentes, como ter as mãos sujas de terra no silêncio dos campos, respirar o fumo das sardinhas a assar num arraial com a Mónica Sintra a cantar, levar uns apertos nas vielas imundas do Bairro Alto ou bebericarmos na asséptica alta cultura da Gulbenkian.

03
Nov23

Das peças de teatro de que eu gosto - Um Homem Inofensivo

BURRO VELHO

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‘Um Homem Inofensivo’ é sobre um encontro fortuito e ambiguamente mal explicado entre dois homens que são o seu oposto, um gosta do silêncio e vive com o peso de um trauma, o outro gosta de música, é desencantado, vive bem com as suas falhas, é invejoso e vingativo, e tem sempre um revólver consigo, é uma peça sobre dois homens que se encontram na solidão urbana, a da vida apressada das cidades, e sobre a tensão que entre eles se cria, tensão que por vezes se transforma em atração e logo a seguir em tensão outra vez, sobre dois homens sós que conseguem encontrar empatia nas suas diferenças.

Quando vemos uma peça não temos de perceber tudo, não precisamos que nos expliquem tudo, basta fruir o momento como aquele que no final vemos Renato a dançar sozinho ao som de David Bowie no seu apartamento, sem sabermos o que lhe vai acontecer a seguir, e neste texto somos deixados na dúvida permanentemente, mais do que naquilo que é dito encontramos estranheza naquilo que não nos é dito, no que temos de intuir, no que pode acontecer a qualquer momento quando duas pessoas sozinhas se encontram inesperadamente, quando duas pessoas se conseguem aproximar entre si quando aparentemente tudo as separa.

O texto foi escrito por Luís António Coelho, vencedor do Grande Prémio do Teatro Português, encenado por Álvaro Correia e interpretado por dois excelentes atores que eu nunca tinha visto trabalhar, Filipe Vargas e Renato Godinho.

Em cena no Teatro Aberto.

 

02
Nov23

Dos filmes de que eu gosto - Maridos de John Cassavetes

BURRO VELHO

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Ando com vontade de conhecer melhor os filmes de Cassavetes e comecei com este improvável Maridos (Husbands, no original), o cartaz a preto e branco com três homens maduros e folgazões captou-me a atenção, o próprio Cassavetes, o seu ator fetiche Peter Falk e o Ben Gazzara (enche todas as cenas com a sua força magnética).

Após a morte prematura de um amigo, estes três homens de meia-idade põem tudo em causa e resolvem deixar momentaneamente tudo para trás e desbundar sem destino nem travão - se Cassavetes tivesse filmado este Husbands nos dias de hoje já tinha sido cancelado e proscrito, não são tempos fáceis para ser politicamente incorreto e dizer as coisas erradas -, sendo as mulheres para estes machos nova-iorquinos do início dos anos 70 muito mais um objeto para os servir do que alguém para amar, mas a vulnerabilidade e as dúvidas destes três são suficientes para sermos solidários com eles na sua procura pela felicidade, agora que a morte os acossou. Grandes atores estes, que carisma.

Na Filmin.

 

01
Nov23

Dos ventos de Espanha - Pedro Sánchez e as democracias

BURRO VELHO

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Numa excelente entrevista à revista Visão, diz Martin Wolf, jornalista do Financial Times, que a democracia “é o melhor sistema disponível, mas talvez não seja possível mantê-lo e acabe por ser um pequeno intervalo na longa história humana de autocracia, plutocracia e repressão, que tem sido a nossa forma de gerir sociedades”, arriscando mesmo vaticinar que a possível reeleição de Trump seja o princípio das democracias tal como as conhecemos nas últimas décadas.

Até eu, um otimista inveterado, partilho deste pessimismo de Wolf, não só pelas guerras que nos ameaçam a todos, emergentes ou latentes, mas sobretudo pelo fim do paradigma político e pela ganância de poder de quem nos governa ou quer governar.

Antes governava quem ganhava as eleições, princípio basilar e fundador da democracia, hoje tudo isso já foi chutado para as calendas, governa quem tiver mais trunfos para vender aos deputados que dão votos, mesmo que estes sejam inimigos declarados da democracia, ou até mesmo, despudoradamente, condenados e fugidos da justiça, nos tempos de hoje a ganância pelo poder perdeu a vergonha e saiu à rua com um orgulho estampado na cara desses políticos.

A gerigonça portuguesa inventada por Costa, Jerónimo e Catarina, a qual admitamos todos que correu bem, abriu um precedente muito perigoso, e se normalmente somos nós que importamos ventos de Espanha, desta feita foi Pedro Sánchez que não esperou pela demora de imitar o seu amigo e homólogo português.

Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, acabou de perder as eleições legislativas para um pouco carismático líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, não tendo permitido que este formasse Governo e estando agora prestes a ser novamente investido pelo Rei como primeiro-ministro, tendo para o efeito negociado uma amnistia para aqueles que se rebelaram contra a própria Espanha, contra aqueles que defendem o fim da própria Espanha que agora Sánchez se propõe a governar, lei da amnistia essa que Sánchez sempre se manifestou contra, até ao dia que teve de se curvar e lamber o chão que Puigdemont e os seus pares pisam para se manter no poder. Parece confuso? Nada disso, é simples, Sánchez sacrifica tudo à sua sede de poder.

A bipartidirização política que conhecíamos terminou nas democracias ocidentais, talvez com exceção dos EUA e Inglaterra hoje em dia é muito difícil formar governos estáveis na Europa, a imensa proliferação de partidos políticos que elegem deputados, a forma como os eleitores descontentes elegem políticos plutocratas lunáticos e extremistas racistas antissistema e a ganância cega de quem quer formar governo, tudo isto nos faz partilhar do pessimismo de Martin Wolf e questionar durante quanto mais tempo as democracias ocidentais irão sobreviver, estando Pedro Sánchez a contribuir em muito para esse fim – ao pé de nuestros hermanos os nossos políticos portugueses ainda são uns anjinhos, até quando?

 

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