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BURRO VELHO

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27
Mar24

Dos projetos bonitos - Fruta Feia

BURRO VELHO

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De acordo com estudos da FAO, organização da ONU para a agricultura e alimentação, cerca de metade da comida produzida vai para o lixo, sendo uma das principais causas deste desperdício o nosso padrão de consumo que rejeita as frutas e as hortaliças feias, aquelas que não têm a cor, o tamanho ou formato perfeito aos nossos olhos.

O projeto FRUTA FEIA, com mais de 10 anos de existência, pretende reduzir o desperdício, promover comportamentos sustentáveis e apoiar os agricultores locais vendendo produtos hortofrutícolas feios mas de qualidade.

A rede da FRUTA FEIA ainda se cinge aos concelhos da grande Lisboa e do grande Porto, mas para quem reside próximo de uma das delegações basta inscrever-se e todas as semanas pode levar a sua caixa de frutas e hortaliças frescas para casa, mediante o pagamento de 4€ ou 8€ consoante o tamanho da caixa.

Na delegação que fica perto de minha casa a lista de espera ascende a dois ou três anos, mas não tem mal, como há sempre pessoas que não conseguem recolher a sua caixa podemos sempre passar, no dia e horário certo, e comprarmos uma caixa à nossa escolha.

Com um gesto tão simples podemos ajudar o outro, proteger o planeta e cuidarmos da nossa saúde, por isso se viver perto dum espaço da FRUTA FEIA não se esqueça, GENTE BONITA COME FRUTA FEIA.

 

24
Mar24

Dos livros de que eu gosto - A Zona de Interesse, de Martin Amis

BURRO VELHO

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Quando há algum tempo li que o livro de Martin Amis sobre o holocausto, A Zona de Interesse, estava a ser adaptado ao cinema fiquei logo entusiasmado por ver o filme e ler o livro - não tanto o tema do holocausto em si, mas, sobretudo, a herança que quem o perpetuou teve de carregar nas gerações seguintes, é algo que sempre me despertou muito interesse.

Para não correr riscos de defraudar expetativas, resolvi aguardar pelo filme e só depois ler o livro, sendo que o filme - com argumento adaptado pelo próprio Amis – é, de facto, apenas levemente inspirado no livro, são objetos muito distintos, e os dois absolutamente extraordinários, diga-se.

O estilo habitual do autor da trilogia de Londres, divertido e contundente sobre os vícios e os podres da sociedade contemporânea, dificilmente é reconhecido neste livro, apesar de ter lido algures que A Zona de Interesse é também uma comédia, afirmação com a qual estou em total desacordo, não consegui nele encontrar quaisquer vestígios de diversão, humor ou entretenimento, tão pouco de sátira, aliás, das poucas similitudes entre livro e filme é precisamente a sua carga pesada, a opressão que sentimos, daí ser um livro que tive de ler especialmente devagar, entre cada vez que pegava no livro e a seguinte precisava de alguns dias longe do livro, precisava de respirar melhor para voltar a ele.

Neste confronto com o horror indizível, com a forma como quase toda uma nação foi cúmplice, ou mesmo autora, da solução final, como não só os militares mas também as suas mulheres em casa festejavam com os charutos e com os visons roubados aos judeus enfiados nas câmaras de gás, como toda esta gente banalizou o mal supremo que podemos conhecer, há espaço para uma história de amor, um amor que não floresceu durante a guerra e quando, após a rendição alemã e a condenação de muitos nazis, poderia ter sido vivido livremente entre Hannah e Joseph, eles próprios também nazis altamente implicados no regime, Hannah cortou cerce a Joseph qualquer esperança que aquele amor alguma vez acontecesse: “Imagine quão repugnante seria se algo de bom saísse daquele lugar” – quem, com um mínimo de consciência e de moral, seria capaz de ousar a viver uma coisa boa que tivesse brotado na envolvência daqueles campos de extermínio?

 

19
Mar24

Da atualidade política - contradições, ou talvez não

BURRO VELHO

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Ao que parece os emigrantes portugueses que foram à procura de melhores condições para a Europa, e que quiseram votar nas eleições legislativas, deram na maioria o seu voto ao Chega, partido contra a imigração, o que faz sentido, nós podemos ir ganhar a vida para os países ricos mas os outros não podem vir ganhar a vida em Portugal, ora pois claro, quem vai de portas abertas fecha a porta a quem vem.

 

18
Mar24

Das séries de que gosto - FEUD: Capote vs The Swans

BURRO VELHO

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Feud: Capote vs The Swans, a nova série de Ryan Murphyé aparentemente só uma história de fofocas e mexericos da alta-roda nova-iorquina dos anos 60 e 70, mas é bem mais do que isso, é a história de Truman Capote, acabadinho de vencer o Nobel da literatura com ‘A Sangue Frio’ e alvo de todas as atenções mediáticas e sociais, o bobo da corte gay, viperino e desbragado, que todas as socialites disputam para o ter ao seu lado, um mundo onde se toma banho com Don Perignon e os lençóis são encomendados em Paris quando se vai aos desfiles da Givenchy ou Chanel, mas quando Capote resolve pôr a nu os podres das suas amigas e inimigas, as Swans, passamos a ter um retrato surpreendentemente sensível da solidão encharcada em cigarros e vinhos caros, um olhar triste de mulheres absolutamente deslumbrantes e intocáveis que são mal tratadas e depois tratam as outras pessoas igualmente mal, personagens carismáticas, atenciosas e capazes de amar quem lhes é próximo, mas que são ao mesmo tempo desagradáveis e tortuosas, personagens que não são nem vilãs nem vítimas, não são só más nem só boazinhas, personagens que são complexas, que se tentam salvar a si e aos que lhes são queridos mas logo a seguir empurram o amigo ou a amiga para o fim do abismo, sendo que no final a maldade é derrotada por uma melancolia reconciliadora.

É verdade que adormeci sempre nos primeiros episódios, mas não atribuo esses bocejos ao facto da série ser chata, porque quando os vi de novo fiquei sempre preso ao enredo, acho que era só cansaço, e talvez por isso tenha achado a linha do tempo algo confusa, anda para trás, anda para a frente, às vezes não sabia a quantas andávamos, mas gostei muito de Capote vs Swans, se nada mais houvesse nos oito episódios realizados por Gus Van Sant, já valia a pena só para podermos apreciar uma cena que fosse de Naomi Watts e Tom Hollander, absolutamente geniais, e se tal ainda não bastasse há ainda Chloé Sevigny, Diane Lane, Calista Flockhart (as mexidas que fez na cara não lhe fizeram bem, que saudades da Ally McBeal), Jessica Lange e Demi Moore, tudo isto servido em bandejas de luxo e ostentação.

Na HBO.

 

13
Mar24

Ainda da noite dos Óscares

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Há muitos anos a esta parte que ouvimos sempre dizer que a cerimónia dos Óscares já não é o que era, a própria redução drástica das audiências tem vindo a atestar isso, pois bem, a cerimónia deste ano foi, apesar de totalmente previsível, um sucesso.

O apresentador, o comediante Jimmy Kimmel, teve uma postura mais institucional mas com um apuradíssimo sentido de humor, algo corrosivo como quando brincou com o passado de drogas de Robert Downey Jr., mas deliciosamente certeiro quando perguntou a Trump, que tinha acabado de tweetar contra Kimmel, se ainda não eram horas de ir para a prisão.

Além destas piadas houve mais gargalhadas como quando o wrestler John Cena entrou em palco (quase) nu para apresentar o óscar para o melhor guarda-roupa, foi divertido.

Não faltou o discurso emotivo e galvanizador de Da’Vine Joy Randolph e tivemos atores laureados no passado a homenagearem os atores nomeados, foi um momento inovador e muito sentido.

O In Memoriam, com o Andrea Bocelli e filho a cantarem Time to Say Goodbye enquanto recordaram a Tina Turner, o Tom Wilkinson, o Mathew Perry e todos os que partiram em 2023, foi aquilo que tem de ser, bonito e saudoso.

Sem politizar a festa, Hollywood não deixou de passar as suas mensagens políticas, quer com a mensagem em vídeo que Navalny nos deixou, a interpelar as pessoas do bem a não desistirem, quer com os discursos de aceitação dos prémios de Jonathan Glazer a favor das vítimas de Gaza e de Israel ou do realizador do documentário ‘20 dias em Mariupol’ a favor da Ucrânia, ou até mesmo os símbolos vermelhos nas lapelas e vestidos de muitos dos artistas e técnicos que subiram ao palco.

E os momentos musicais são sempre um marco da noite e foram inesquecíveis, se o meu momento favorito da noite foi ouvir os irmãos Billie Eilish e Phineas O´Connel, como não enaltecer a performance de Jon Baptiste a cantar para a mulher que estava na plateia ou vermos em palco os índios Osage, partilhando aqui convosco a atuação de Ryan Gosling e dos Kens a interpretar uma das músicas do filme Barbie, this is the pure joy of the oscars night.

 

11
Mar24

Dos espetáculos de que gosto - A Rainha da Beleza de Leenane

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A Rainha da Beleza de Leenane, encenação de Sandra Faleiro a partir de um texto do irlandês Martin McDonagh (conhecido por ser o argumentista e realizador de filmes como Os Espíritos de Inisherin ou Três Cartazes à Beira da Estrada), fala-nos do envelhecimento, da saúde mental, do isolamento, da necessidade de se ir ganhar o pão para terras estrangeiras, mostra-nos um caminho sem empatia que pode ser o de todos nós, mas recorda-nos que podemos sempre fazer um caminho melhor, que podemos sempre sentir que fomos empáticos e ter a consciência de que fizemos o melhor que nos era possível, ou seja, o contrário de tudo o que vemos em cena.

Devido à exiguidade da sala estúdio do Teatro da Trindade, nós espetadores quase que entrámos pelo cenário dentro e respirámos aquela intimidade das personagens numa experiência muito física, quase que integrámos aquele cenário, quase que fomos iluminados por um jogo de luzes que nos fez gravar na memória várias imagens do que as nossas vidas são, ou já foram, ou podem ainda vir a ser.

Talvez pelo facto do texto original ser passado na Irlanda rural possa ter ressoado mais forte naquela que é a nossa portugalidade, naquelas que são as nossas vidas, quase todos nós testemunhámos histórias, mais ou menos familiares, de pessoas idosas que vivem sozinhas, isoladas, na angústia da falta de assistência, dos cuidadores que se anulam para ajudar os pais, de jovens e menos jovens que emigraram para a França ou Suíça, de pessoas que nos são queridas com depressões ou esgotamentos, todo aquele texto reverbera no nosso pequeno mundo, e a acrescentar ao texto, à encenação, às luzes, ao cenário, temos também a entrega dos quatro atores em palco, Valerie Braddell, Paula Lobo Antunes, Nuno Nunes e o estreante Vicente Gil. Bravo!

No Teatro da Trindade, em breve em digressão pelo país.

 

10
Mar24

Da festa de Hollywood - a noite dos Óscares

BURRO VELHO

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Numa noite que promete ser longa e de emoções fortes, nada melhor do que a festa do cinema para esquecer possíveis amargos de boca que a noite eleitoral nos possa trazer, e sim, a cerimónia de entrega dos Óscares é só isso, uma festa, nada mais do que isso, uma noite que não vai fazer com que as pessoas de Gaza ou da Ucrânia respirem melhor e que tão pouco vai consagrar todos os bons filmes, nem pouco mais ou menos, é apenas uma festa em que Hollywood celebra o cinema e graças aos ares de mudança que por lá se tem sentido - às vezes com uma tónica demasiado excessiva na preocupação em ser politicamente correto e não deixar nenhuma minoria de fora - uma celebração que cada vez mais abraça cinematografias de países onde a lingua inglesa não impera.

A colheita de 2023 foi memorável no que a filmes diz respeito, por isso não teremos maus filmes entre os vencedores, mas ainda não vai ser este ano que os meus favoritos vão sair vitoriosos, já nem me recordo de quando foi a última vez que saltei de alegria ao ouvir "and the Oscar goes to ...".

Maestro, Vidas Passadas e A Zona de Interesse, os meus grande favoritos, vão sair de mãos a abanar, com exceção do melhor filme internacional e talvez do melhor som, e não é que Oppenheimer desmereça, mas vou estar mesmo a torcer que hajam algumas surpresas e o filme de Christopher Nolan perca o maior número possível das 13 nomeações com que vai começar a noite, mas mesmo que os meus favoritos percam todos vamos ter sempre os outfits, o número de abertura, os discursos empolgantes, as homenagens, o ad memoriam, a Billie Eilish e o Jon Batiste e as coreografias de todos os candidatos a melhor canção original e muito mais.

Com a ressalva de que não vi American Fiction e de que a Emma Stone é para lá de maravilhosa, os meus desejos e as minhas previsões nas principais categorias são as seguintes:

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09
Mar24

Dos filmes de que gosto - As Bestas, de Rodrigo Sorogoyen

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AS BESTAS, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, arrecadou Goyas e Césares em barda e é um belíssimo e perturbante filme, com toques de thriller, sobre a brutalidade do mundo rural, um mundo que não entende o da cidade que vem falar em ecologia e paz de espírito, e o da cidade que não assimila a rudeza e as desavenças entre vizinhos por coisas aparentemente pueris, como a disputa de servidões de passagem, que à cidade pode parecer estranha mas que podem ser de toda a importância para quem vive fechado numa vida sem horizontes e que sobrevive a contar tostões e a chafurdar na lama.

Enquanto a primeira parte foca-se numa violência masculina muito primitiva e xenófoba - vêm agora estes estrangeiros aperaltados mandar nos que aqui já nasceram -, na segunda ganha fôlego a perseverança e a história de amor graças à conciliação feminina, correndo o risco, parece-me, deste filme aumentar o fosso entre a cidade e ruralidade, corre o risco destas gentes se sentirem ofendidas - nós não somos assim, nós somos pessoas dignas, os da cidade não sabem do que falam -, mas não estaremos longe da verdade ao sentir que este drama, passado na Galiza profunda perto de Ourense, podia muito bem passar as fronteiras e passar-se numa qualquer aldeia remota do Minho ou Trás-os-Montes.

Nos canais TV Cine e plataforma Filmin.

 

08
Mar24

Dos espetáculos de que gosto - Fuck Me, de Marina Otero

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Desperdicei algum tempo no início de FUCK ME, espetáculo de dança autoficcional da coreógrafa argentina Marina Otero, a tentar perceber qual era a fronteira daquela lesão na coluna com a realidade (está mesmo entravada como diz estar?) e a questionar-me se a nudez em palco acrescentava alguma coisa ou se seria apenas gratuita ou para chocar, distraí-me alguns minutos com estes pensamentos e não entrei logo na peça, tão pouco o começo inusitado me prendeu de imediato, mas quando me concentrei no que estava a ver e ouvir em palco deixei-me levar por aquela torrente, um tumulto violento e uma fragilidade imensa.

Como li algures, FUCK ME alterna entre o documentário e a ficção, entre a dança e a performance, entre o acaso e a representação, e conta-nos a história de um corpo que envelheceu, que se destruiu, que secou, que se automutilou a dançar e que agora já não consegue dançar, que já não consegue nada, um corpo que mirrou e que apenas sobrevive, e que num jogo de espelhos se projeta e resolve dançar no corpo de cinco bailarinos, um corpo que se repete e que vive nos corpos desses bailarinos, causando no espetador alguma inquietação na indecisão se foca o seu olhar nos dançarinos em palco ou na dançarina que Marina Otero foi e que os écrans nos mostram por trás.

Se FUCK ME é uma história de destruição, uma história que ao invés da vitimização opta pela vingança, de uma mulher que se vinga dos homens, do avô da ditadura argentina e dos homens que a magoaram mas de quem ela soube aproveitar-se, FUCK ME é também uma história de regeneração, de renascer, mas FUCK ME é sobretudo dança, é vermos corpos fluídos a dançar, a exprimir tudo isto e sobretudo a expressaram sensualidade, corpos prenhes de uma intimidade visceral, de sexualidade, de sexo, e não, a nudez em palco não foi gratuita.

O espetáculo foi televisionado e transmitido pela RTP2 (atenção às boxes ou à RTP Play), estando eu muito curioso para ver se a experiência que sentimos ao ver no palco do CCB todo este tumulto, toda esta forma ousada e destemperada de nos escancararem a intimidade da artista, todas aquelas imagens poderosas que nos ficaram gravadas na pele, resulta igualmente no pequeno écran da televisão, ainda assim parabéns RTP por também programar espetáculos que arriscam e que são arriscados.

 

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