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BURRO VELHO

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24
Mar24

Dos livros de que eu gosto - A Zona de Interesse, de Martin Amis

BURRO VELHO

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Quando há algum tempo li que o livro de Martin Amis sobre o holocausto, A Zona de Interesse, estava a ser adaptado ao cinema fiquei logo entusiasmado por ver o filme e ler o livro - não tanto o tema do holocausto em si, mas, sobretudo, a herança que quem o perpetuou teve de carregar nas gerações seguintes, é algo que sempre me despertou muito interesse.

Para não correr riscos de defraudar expetativas, resolvi aguardar pelo filme e só depois ler o livro, sendo que o filme - com argumento adaptado pelo próprio Amis – é, de facto, apenas levemente inspirado no livro, são objetos muito distintos, e os dois absolutamente extraordinários, diga-se.

O estilo habitual do autor da trilogia de Londres, divertido e contundente sobre os vícios e os podres da sociedade contemporânea, dificilmente é reconhecido neste livro, apesar de ter lido algures que A Zona de Interesse é também uma comédia, afirmação com a qual estou em total desacordo, não consegui nele encontrar quaisquer vestígios de diversão, humor ou entretenimento, tão pouco de sátira, aliás, das poucas similitudes entre livro e filme é precisamente a sua carga pesada, a opressão que sentimos, daí ser um livro que tive de ler especialmente devagar, entre cada vez que pegava no livro e a seguinte precisava de alguns dias longe do livro, precisava de respirar melhor para voltar a ele.

Neste confronto com o horror indizível, com a forma como quase toda uma nação foi cúmplice, ou mesmo autora, da solução final, como não só os militares mas também as suas mulheres em casa festejavam com os charutos e com os visons roubados aos judeus enfiados nas câmaras de gás, como toda esta gente banalizou o mal supremo que podemos conhecer, há espaço para uma história de amor, um amor que não floresceu durante a guerra e quando, após a rendição alemã e a condenação de muitos nazis, poderia ter sido vivido livremente entre Hannah e Joseph, eles próprios também nazis altamente implicados no regime, Hannah cortou cerce a Joseph qualquer esperança que aquele amor alguma vez acontecesse: “Imagine quão repugnante seria se algo de bom saísse daquele lugar” – quem, com um mínimo de consciência e de moral, seria capaz de ousar a viver uma coisa boa que tivesse brotado na envolvência daqueles campos de extermínio?

 

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