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BURRO VELHO

BURRO VELHO

29
Abr24

Dos filmes que vejo - O Rapto, de Marco Bellocchio

BURRO VELHO

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Em O Rapto, do italiano Marco Bellocchio, vemos uma igreja católica no século XIX obscura, fanática, grotesca, que impunha aos crentes as suas verdades dogmáticas (espetacular a cena em que o menino Edgardo explica a Pio IX o que é uma dogma, uma verdade da fé em que se acredita sem se fazer perguntas, sem se discutir, porque vem diretamente de Deus) como forma para estes aceitarem as maiores atrocidades dos eclesiásticos, mesmo quando sob as suas vestes de cordeiro cortavam cerce nos laços familiares de uma criança com a sua família, nomeadamente neste célebre caso em que um bebé judeu foi batizado à revelia de seus pais e como tal foi-lhes raptado para ser educado à luz da fé católica, educado para ser obediente e subserviente, educado para servir a Igreja de forma acéfala e deixar morrer o homem que há dentro de cada um de nós.

O filme é de um classicismo puro, austero, imponente, por alturas de 1850 vemos uma Bolonha, e uma Santa Sé, opulenta, rica, próspera, virtuosa nos seus rituais judeus e católicos, aonde as pessoas e as casas sujas e pobres não têm lugar, onde o poder do Vaticano seca qualquer réstia de humanidade, talvez por isso me tenha faltado uma nesga para aos meus olhos O Rapto ser um filme extraordinário, daqueles que nos tiram o fôlego, talvez tenha faltado isso mesmo, sangue na guelra, ou humanidade se preferirem.

 

27
Abr24

Das nossas músicas - Diga 33 com A garota não

BURRO VELHO

 

Não foi há muito que o Burro Velho partilhou aqui o seu encantamento pel’A garota não, mas ainda e sempre por Abril e pela Liberdade, e

se a liberdade é a chamada

nunca mudemos de assunto!

 

A Garota, sempre prenhe de música, poesia e intervenção, pediu emprestado 33 títulos de canções a Sérgio Godinho e compôs este hino à nossa Liberdade:

 

Espalhem a notícia
Na Lisboa que amanhece
Se o galo é o dono dos ovos
À mulher, o que acontece?

Cão raivoso, Aguenta aí
A tua fala é uma emboscada
Tem Embalo e matraquilhos
E sabe A Noite Passada

Liberdade, dias úteis
Horas extraordinárias
Etelvina, Rita, Alice
Tantas lutas necessárias

Cuidado com as imitações
E as bíblias desse deus ateu
Há bilhetes de ida e volta
Salazar nunca morreu

Toca e foge, não respire
Mais uma canção de medo
Antes o poço da morte
Do que cantar em segredo

Liberdade, dias úteis
Horas extraordinárias
Homens de sete instrumentos
Tantas lutas necessárias

Pode alguém ser quem não é?
Se for só contrafação?
Quando o lobo vai à missa
Sai de lá um charlatão

Obrigada, caro amigo
Por este elixir de amor
P'las canções que são abraços
Ao partir, parto sem dor

Até domingo que vem
O sonho não será defunto
Se a Liberdade é a chamada
Nunca mudemos de assunto

 

Não nos esqueçamos, a liberdade é sempre precária, é preciso lutar por ela, espalhem a notícia.

 

24
Abr24

Da atualidade política - as boutades e a persona de Marcelo

BURRO VELHO

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Os portugueses há muito que se habituaram às insanidades de Marcelo, mas ontem foi um dia especialmente prolífero em boutades marcelísticas, ficámos a saber que aos seus olhos António Costa é lento devido à sua ancestralidade oriental, Montenegro tem comportamentos rurais porque vem lá da terrinha saloia, e que tem um neto preferido, o resto da sua prole que lhe saia da sua vista, a sério, não haverá ninguém que lhe diga que não tem condições para ocupar o cargo? Será que os processos de impeachment (ou destituição) só acontecem no Brasil e nos Estados Unidos?

Também soubemos hoje que cortou relações com o "Dr. Nuno", seu filho, a propósito do caso das gémeas brasileiras.

Quem não é bom filho, não é boa pessoa, há muito que adotei esta velha máxima cá com os meus botões, que é mais ou menos o mesmo que dizer que quem não é bom pai, não é bom presidente, e sobre isto apetece-me dizer que um pai não deve cortar relações com um filho, mas um presidente pode (e deve) renunciar.

 

23
Abr24

Dos filmes de que eu gosto - Retrato de Família com Teatro de Marionetas, de Philippe Garrel

BURRO VELHO

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Seja por crescimento, doença ou morte, as famílias transformam-se, desagregam-se, multiplicam-se, a nossa célula familiar tal como a conhecemos desde a infância vai invariavelmente tornar-se noutra coisa qualquer, sendo esse processo por vezes gradual e feliz, noutras súbito e doloroso, convocando-nos para uma aceitação e para um luto que nem sempre o sabemos viver da melhor forma.

RETRATO de FAMÍLIA com TEATRO de MARIONETAS (Le Grand Chariot, no original), do realizador francês Philippe Garrel e com os seus 3 filhos como protagonistas (Louis, Esther e Léna), é um filme normal que fala duma família normal, unida pelo amor em vida e pelo amor na perda, no luto e no conflito entre largar o ninho ou preservar até ao último tostão todas as memórias do passado, um belíssimo filme por sinal.

 

18
Abr24

Das séries que eu adoro - Ripley

BURRO VELHO

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Ripley pode muito bem vir a ser a melhor série de 2024, que portentosa obra-prima.

A partir do muito aclamado policial de Patricia Highsmith - ‘O talentoso Mr. Ripley’ -, tão bem e tantas vezes já adaptado ao cinema, a última das quais (que eu saiba) em 1999 pelo falecido Anthony Minghella, com Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett e Philip Seymour Hoffman (!!!), nesta série de 8 episódios de Steven Zaillian temos todo o tempo do mundo para testemunharmos as profundezas mais negras do ser humano, a ambiguidade de quem num momento suscita empatia e logo a seguir solta a besta inominável dentro de si, oito episódios em que estamos sempre expectantes no que pode acontecer a seguir, em que um simples ascensor dos anos 60 pode não ser só um simples ascensor, em que um gato majestoso que nos convoca com a força do seu olhar pode não ser simplesmente só um gato, onde tudo pode ser aquilo que aparenta ser ou não, onde o belo coabita sempre com o negro, são oito demorados e depurados episódios em que ansiamos por ver como a maldade displicente vai conseguir disfarçar-se sem mácula, onde nunca nos falta o ar mas estamos sempre em contenção, é a mestria em estado puro.

Não fosse suficiente a densidade com que submergimos neste policial, a qualidade dos seus atores (esta é a hora de Andrew Scott, a nova coqueluche do cinema mundial e o grande esquecido dos Óscares do ano passado), ou as músicas italianas dos anos 50, Ripley já era absolutamente imperdível pela sua esplendorosa fotografia a preto e branco, não há uma única cena que não seja de cortar a respiração, todo o requinte italiano dos anos 60, a atenção máxima em todos os detalhes, o autocarro que serpenteia na costa acidentada de Atrani, os Caravaggios e as lojas velhas de Nápoles, os Fiats nas calçadas empedradas de Roma, os sapatos Ferragamo, os cinzeiros, as villas, tudo e tudo e tudo – se eu pudesse ser turista apenas num único sítio seria certamente nesta Itália de Ripley.

Na Netflix.

17
Abr24

Da atualidade política - o embusteiro

BURRO VELHO

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Claro que Montenegro e o PSD mentiram à fartazana com o tão prometido choque fiscal, simplesmente a principal promessa eleitoral e a primeira medida a ser anunciada no programa do Governo, coisa pouca - podem dizer à vontade que os jornalistas e a oposição se não perguntaram foi porque não quiseram, trabalhassem - por acaso a IL até perguntou de forma insistente e bem explícita -, podem até dizer que o que sempre prometeram foi uma redução de 1.500 milhões de euros em 2024 face a 2023, ou seja, nunca afirmaram preto no branco de quem era a paternidade da dita redução nunca antes vista pelos portugueses, podem dizer tudo e mais alguma coisa com aquele sorriso seráfico tão próprio de quem nada tem para dizer, ou melhor, de quem sempre espera para ver donde sopram ventos de feição antes de nos comprometermos seja com o que for, o verdadeiro catavento, podem até mandar o Ministro dos Assuntos Parlamentares aguentar-se à bronca no Parlamento e esconderem o Ministro das Finanças em Nova Iorque, mas a verdade é que nosso Primeiro e a sua entourage mentiu aos Portugueses com quantos dentes têm na boca, ou trocando por miúdos, o tal embuste (mentira ardilosa, patranha, logro).

Mas há uma coisa que não entendo - se calhar até há muitas -, que é ouvir tantas vozes, jornalistas, comentadores, oposição e correligionários de partido, afirmarem que isto foi um rude golpe na credibilidade de Montenegro e do seu Governo, mas como um rude golpe se nunca a tiveram, como perder uma coisa que nunca se teve?

Ou alguma vez alguém com dois dedos de testa acreditou no cenário macroeconómico da AD, que com um toque de midas fruto do milagroso choque fiscal (aquele que afinal se deve em 88% à dupla Costa & Medina), e do aumento do consumo interno, ia pôr o país sempre a crescer até ao final da legislatura (3,4% em 2028), aumentando ao mesmo tempo médicos, professores, polícias, oficiais de justiça e tudo o que tenha força para fazer greve, tudo isto ao mesmo tempo que vai assegurar um ligeiro excedente orçamental (algo elementar para quem vai arrecadar menos impostos e ter muito mais despesa, ironia, ok?) – com este nível de 'ambição', que sustentou todas as promessas possíveis e imaginárias, acham mesmo que ainda havia credibilidade para o Governo perder?

Aguardemos para ver como é que aos poucos estas botas vão sendo descalçadas, aguardemos.

 

16
Abr24

Da TV de que eu gosto - Vinhos com História

BURRO VELHO

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Belíssima série documental de cinco episódios sobre alguns vinhos portugueses e o que os torna tão únicos, mostrando-nos ao longo das 4 estações do ano como são feitos, entre a vinha e a adega, dando-nos saborosas lições de história, de geologia, das castas tradicionais portuguesas, ao mesmo tempo que nos dá a conhecer as pessoas que souberam trazer a tradição destes vinhos até aos dias de hoje.

No fim ficamos seguramente com vontade de ir visitar estes locais e provar estes néctares, depois dos vinhos da talha da Vidigueira, de Colares ou do Pico, aonde é que iremos a seguir?

Na RTP1.

 

11
Abr24

Das lições de história - o sono comunitário

BURRO VELHO

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A BBC, com uma longa reportagem chamada ‘The lost ancient practice of communal sleep’, dá-nos uma lição de história sobre hábitos desde tempos muito idos em que as pessoas dormiam de forma comunitária, ou seja, juntas, mesmo quando eram estranhas entre si.

Os historiadores conseguem recuar 77.000 anos, com provas recolhidas em grutas na África do Sul, e relatam múltiplas evidências até ao século XIX, com alguns leitos de famosos partilhados e as virtudes de se partilharem lençóis e cobertores, como a aliança que durou algum tempo entre Inglaterra e França pela amizade estabelecida, em 1187, entre Ricardo Coração de Leão e Filipe II, camas essas que começaram a ser partilhadas enquanto ambos os países estavam em guerra, basicamente durante o dia davam ordem aos seus generais para matarem em barda, e à noite recolhiam à mesma tenda.

Vários historiadores, que leram manuscritos, diários, de gente famosa e desconhecida, viram pinturas, esculturas, fósseis, estão certos que durante milhares de anos as pessoas dormiam, naturalmente, juntas, movidas por princípios nobres e sem sombra de pecado, e sem nada ter a ver com a pobreza e miséria de então – as pessoas não dormiam juntas por as camas e os cobertores serem escassos, mas sim porque dessa forma podiam melhor socializar, ao deitarem-se juntas podiam assim ficar a conversar até altas horas de madrugada, o que se entende melhor à luz duma época onde nem sequer havia eletricidade.

Este hábito ancestral terá atravessado transversalmente todas as classes sociais, desde o pobre caixeiro-viajante que chegava a uma estalagem de aldeia até a chefes de estado como os pais fundadores dos Estados Unidos, Benjamin Franklin e John Adams, e tudo porque a malta queria apenas conversar, qual o mal?

A bem da verdade histórica também nos alertam que nem tudo eram rosas nessas camas, apesar duma etiqueta social que sempre vigorou, como não falar num tom de voz elevado, o communal sleep trazia em si mesmo alguns riscos sanitários, o perigo de propagar doenças, pulgas e percevejos devido à falta de higiene, ou riscos acrescidos de crimes, assassinatos ou abusos sexuais, daí a hierarquia já então respeitada quando se abria a cama a estranhos, na ponta ficava a filha mais velha, e assim sucessivamente até à mais nova, depois a mãe, o pai, o filho mais novo, e assim sucessivamente até ao filho mais velho, e então finalmente vinham os desconhecidos, aqueles a quem se abria a cama para melhor se socializar, não por serem pobres ou promíscuos.

Por mim não vejo mal algum neste hábito ancestral há muito perdido, mesmo que aquelas cabeças fossem comandadas por pensamentos impuros, agora admito que tenho dificuldade em comprar esta ideia tão virtuosa que os historiadores da BBC me quiseram vender, e que os homens dos tempos modernos, que é como quem diz desde meados do século XIX, não souberam preservar – eu cá dou-me por feliz por viver numa altura que podemos dormir sozinhos ou poder escolher a quem levantamos a ponta do lençol, para socializar ou o que nos der na real gana.

 

09
Abr24

Diz-me com quem andas ... - o PSD e Pedro Passos Coelho

BURRO VELHO

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... e dir-te-ei quem és!

Há algum tempo que o Burro Velho não vem aqui perorar sobre política nacional por este ser um tempo de forte descrença do atual panorama e por querer dar o benefício da dúvida a quem ainda não me convenceu merecer esse benefício, mas o seu a seu tempo e que nos convençam do contrário.

Esta auto-imposta, e bem-comportada, contenção cai por terra ao ver o apadrinhamento de Pedro Passos Coelho ao novo manifesto, anti-progressista, em defesa dos valores da família, o livro 'Identidade e Família´, de um nobel conjunto de pensadores da direita tradicionalista (permitam-me o eufemismo), apelando à contenção possível que ainda me resta para não adjetivar o dito livro, até porque não o li, e certamente não o lerei, pelo que gostaria de não o classificar com termos como bacoco, reacionário, perigoso e abstruso.

Será só minha esta inquietação a propósito desta nuvem escura que paira no PSD: a malta social democrata, ou seja que não é socialista, a malta que acredita na igualdade de oportunidades, e não simplesmente na igualdade, a malta que acha que há Estado a mais mas não se entusiasma por aí além com o liberalismo, por acreditar na importância do papel do Estado nalguns setores, a malta que é humanista, que gosta das pessoas, que é empática, que preza o respeito e a tolerância, esta malta pode votar exatamente em quem no atual espetro político?

 

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