Dos filmes que adoramos - Sentimental Value, de Joachim Trier

Desde que não haja pessoas malcomportadas, que as há, e muito, pessoas que não sabem cochichar em silêncio ou que comem pipocas de boca arreganhada enquanto remexem o baldinho, a experiência de partilhar um filme numa sala escura, alimentando e sendo alimentada pela energia que ali se cria, é algo verdadeiramente especial, nunca esquecerei onde tive o privilégio de ver Sentimental Value, do realizador norueguês Joachim Trier.
Em Valor Sentimental, a memória não é coisa do passado, a nossa memória e a dos nossos espaços é algo sempre presente, que nos acompanha, e aquela casa é em si mesmo uma das personagens principais do filme, sendo este um dos filmes mais inteligentes e sensíveis de que me recordo, de uma tristeza elegante e de um humor delicado.
É um filme sobre a paternidade e o trauma, sobre a orfandade e o ressentimento, sobre a renúncia e a fadiga, sobre a arte ser transformadora ou uma fuga, onde o perdão pode dispensar palavras e chegar num olhar, onde tantas vezes a dor se disfarça sem a aprofundarmos, sobre o resgate e a redenção, no fundo sobre a vida das famílias.
Fiquei muito contente com a nomeação de Elle Fanning para o óscar de melhor atriz secundária, merecida, mas a sua personagem é meio intrusa, não vive nas memórias daquela casa, não comunga da pulsão entre o pai Stellan Skarsgard, e as filhas Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, estes três são a expressão máxima de interpretações absolutamente memoráveis.
É um ano cinematográfico muito forte, amei vários dos nomeados para o óscar de melhor filme (e ainda não vi todos), tenho um fraquinho muito especial por O Agente Secreto, mas ficaria muito triste se Sentimental Value não ganhasse alguns dos nove óscares para que está nomeado, é um filme magistral, quero rever muitas vezes.







