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BURRO VELHO

BURRO VELHO

30
Jan26

Dos filmes que adoramos - Sentimental Value, de Joachim Trier

BURRO VELHO

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Desde que não haja pessoas malcomportadas, que as há, e muito, pessoas que não sabem cochichar em silêncio ou que comem pipocas de boca arreganhada enquanto remexem o baldinho, a experiência de partilhar um filme numa sala escura, alimentando e sendo alimentada pela energia que ali se cria, é algo verdadeiramente especial, nunca esquecerei onde tive o privilégio de ver Sentimental Value, do realizador norueguês Joachim Trier.

Em Valor Sentimental, a memória não é coisa do passado, a nossa memória e a dos nossos espaços é algo sempre presente, que nos acompanha, e aquela casa é em si mesmo uma das personagens principais do filme, sendo este um dos filmes mais inteligentes e sensíveis de que me recordo, de uma tristeza elegante e de um humor delicado.

É um filme sobre a paternidade e o trauma, sobre a orfandade e o ressentimento, sobre a renúncia e a fadiga, sobre a arte ser transformadora ou uma fuga, onde o perdão pode dispensar palavras e chegar num olhar, onde tantas vezes a dor se disfarça sem a aprofundarmos, sobre o resgate e a redenção, no fundo sobre a vida das famílias.

Fiquei muito contente com a nomeação de Elle Fanning para o óscar de melhor atriz secundária, merecida, mas a sua personagem é meio intrusa, não vive nas memórias daquela casa, não comunga da pulsão entre o pai Stellan Skarsgard, e as filhas Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, estes três são a expressão máxima de interpretações absolutamente memoráveis.

É um ano cinematográfico muito forte, amei vários dos nomeados para o óscar de melhor filme (e ainda não vi todos), tenho um fraquinho muito especial por O Agente Secreto, mas ficaria muito triste se Sentimental Value não ganhasse alguns dos nove óscares para que está nomeado, é um filme magistral, quero rever muitas vezes.

 

22
Jan26

Dos filmes que vejo - Mata-te Amor, de Lynne Ramsay

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Comecei por não gostar nada de “Mata-te Amor”, da realizadora escocesa Lynne Ramsay, o filme quer tocar em tanta coisa profunda, depressão pós-parto, relações tóxicas, saúde mental, laços familiares, mas depois deixa tudo pela rama, com um argumento um bocado confuso, com muito movimento, muito barulho, muita música, muita cor, com algumas alucinações pelo meio, tudo muito.

De início não consegui aderir ao filme, mas à medida que foi ficando um pouco mais negro, ou esperançoso, não sei bem, que reduziu a intensidade, fui gostando mais.

De todo o excelente elenco (não me recordo de ter visto antes algum filme do Robert Pattinson), tenho de destacar a velhinha Sissy Spacek.

Não desgostei, mas soube-me a pouco, acho que faltou unhas à realizadora para fazer um filme melhor.

 

11
Jan26

Dos lugares bonitos - MACAM - Museu de Arte Contemporânea Armando Martins

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Armando Martins, um colecionador de arte até há pouco desconhecido do grande público, quis oferecer à cidade um museu para todos podermos apreciar as obras de arte moderna e contemporânea que foi adquirindo nos últimos 50 anos, e assim instalou no reconstruído Palácio dos Condes de Vila Franca, na Rua da Junqueira, o seu MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins.

Todo o espaço envolvente está muito bonito, o hotel, o restaurante, a loja, os jardins, por onde as obras se estendem, mas é um verdadeiro luxo os lisboetas, e os seus visitantes, poderem descobrir esta coleção tão rica.

A galeria com as obras do século XXI não foi a que mais me conquistou (gostei especialmente da peça de Marina Abramovic), mas regalei-me com, entre muitos outros, os Almada Negreiros, José Malhoa, Vieira da Silva, Amadeu de Souza-Cardoso, Júlio Pomar, Julião Sarmento, Paula Rego, Menez, Querubim Lapa, etc., sendo que o meu olhar ficou com o surpreendente (para mim) Eduardo Viana.

Obrigado Sr. Armando, e muito sucesso.

 

10
Jan26

Dos filmes de que gostamos - Song Sung Blue, de Craig Brewer

BURRO VELHO

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Se tem horror a filmes pirosos, com cantorias e a puxar à lágrima, fuja de Song Sung Blue como do diabo da cruz, mas está a perder entretenimento de alta categoria, mesmo que uma lágrima possa espreitar.

Baseado numa história verídica, acompanha um casal de meia-idade meio perdido na Milwaukee dos anos 90, sem dinheiro, sozinhos e habituados a serem gozados pelos seus gostos mais freaks, que se conhecem, apaixonam e gostam de cantar músicas de Neil Diamond, pelo meio até conhecem o jovem Eddie Vedder dos Pearl Jam.

Song Sung Blue é ao mesmo tempo uma comédia e um drama, no meio de tantas desgraças há sempre um recomeço e um otimismo latente, beauty and color, é cinema que vemos com muito gosto, servido por uma dupla de atores em estado de graça, um muito credível Hugh Jackman e uma fulgurante Kate Hudson, décadas sem lhe prestar atenção e basta uma cena para agarrar o espetador com o brilho de estrela (e foi só a mim que me fez lembrar a nossa Marina Mota?).

 

07
Jan26

Da atualidade política - facilitador de negócios, sim ou não?

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Concebo dar o meu voto a Marques Mendes numa eventual segunda-volta, ponderei dar-lhe o meu voto útil logo à primeira, caso os cenários em cima da mesa aí me levassem, possibilidade agora algo remota, parece-me, serei portanto insuspeito na minha opinião por não ser um eleitor natural do ilustre comentador-mor da nossa praça.

Dito isto, é constrangedor ver Marques Mendes a tremer perante o ataque-cerrado do Senhor Almirante, o homem fica tão hirto de tensão que parece quebrar a qualquer momento, diga um, diga lá um, e depois fica baratinado quando lhe buzinam uns nomes de umas certas empresas, sem qualquer nenhum valor de acusação, diga-se.

Agora, convenhamos, estar inscrito na Ordem dos Advogados, pagar os seus impostos regularmente e nunca ter sido investigado por nenhuma suspeita de crime, nada disso certifica a sua profissão, nada disso atesta que o seu ganha-pão foi com a advocacia, se calhar porque não o pode dizer, pelo menos ninguém acredita nisso.

Mas não seria muito mais fácil assumir que uma das suas principais atividades foi facilitar negócios? Acredito que se o tivesse feito teria saído muito menos beliscado deste lodaçal, promovido por quem não gosta de politiquice baixa (imagine-se se gostasse, minha Nossa Senhora) - o nome não é o mais bonito, nem a profissão a mais nobre, mas também não é de todo um crime de lesa majestade, e facilitar acordos (eufemisticamente falando) até pode ser curriculum para um Presidente da República.

 

 

04
Jan26

Dos filmes que adoramos - House of Dynamite, de Kathryn Bigelow

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E se alguém desconhecido lança um míssil nuclear, a partir de um sítio desconhecido, que vai aniquilar a cidade de Chicago e matar 10 milhões de pessoas, o que fazem os EUA quando têm menos de 20 minutos para reagir contra um agressor incógnito, será a Coreia do Norte, a Rússia, a China ou algum país mais amigo?

House of Dynamite (Prestes a Explodir), realizado pela oscarizada Kathryn Bigelow, aborda como o governo, as pessoas e as instituições reagem perante um cenário iminente de catástrofe absoluta, recomeçando do zero várias vezes para nos dar diferentes perspetivas desses últimos 20 minutos, desde o momento em que as vidas ainda são rotineiras até, num ápice, o medo e a incredulidade se instalarem.

O argumento, o ritmo (montagem) e os atores (Idris Elba, Rebecca Ferguson, Tracy Lets, Jared Harris, etc.) fazem deste House of Dynamite um excelente thriller e um dos melhores filmes do ano.

Na Netflix, sem passar pelas salas de cinema.

 

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