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BURRO VELHO

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18
Abr23

Me Too à portuguesa – Boaventura Sousa Santos

BURRO VELHO

Boaventura

 

É inegável o avanço civilizacional dos últimos anos graças ao movimento Me Too, devemos estar todos gratos a quem teve a coragem de dar o pontapé de saída (a propósito recomendo um excelente filme de 2022 sobre o primeiro artigo saído no New York Times, ‘She Said’ – Ela Disse), sim, porque é quase sempre um ato de coragem fazer uma denúncia não anónima sobre assédio moral e sexual – e não confundir assédio com sedução, piropo, galanteio, bater uns couros (que delícia esta expressão), whatever, só há assédio quando há uma relação de poder ou domínio entre quem assedia e é assediado.

Por outro lado, acho inquietante algumas ‘externalidades’ negativas do Me Too, basta alguém lembrar-se de dizer umas coisas manhosas sobre uma personagem de que não se gosta, e, por mais mentira que seja, essa pessoa é automaticamente cancelada sem qualquer hipótese de redenção, passa a ser uma espécie de pária.

Dito isto, para mim Boaventura Sousa Santos era até há poucos dias um sociólogo tremendamente aborrecido que me obrigaram a estudar nos tempos da faculdade e com o qual nunca tive a menor afinidade de pensamento, nada sei sobre o seu comportamento e sobre como exercia o seu poder no Centro de Estudos Sociais, nada sei se esta situação já corria à boca pequena nas ruas de Coimbra, e tão pouco consigo opinar se os relatos agora vindos a público são credíveis e convincentes, não é tanto sobre Boaventura Sousa Santos e os seus putativos delfins que me apetece falar, tão pouco da culpa ser do neoliberalismo (hein?) segundo o próprio, que a justiça faça o seu caminho.

Ora, é exatamente sobre esta minha última frase que me apetece falar, sobre a justiça fazer o seu caminho e sobre outra frase que nestas alturas se ouve muito: a presunção de inocência é um dos princípios basilares do estado de direto e até ser condenado por um tribunal ninguém pode ser considerado culpado por nada.

Inquestionável, é um dos nossos direitos fundamentais, mas quando alguém enche o peito para o dizer, com a gravidade necessária, só me ocorre uma palavra - hipocrisia -, e nem me apetece ir pelo argumento que não há direitos absolutos num estado de direito, nem o próprio direito à vida.

Tendencialmente os casos de assédio são casos difíceis de provar em tribunal, e se não se conseguir provar que um hipotético agressor prevaricou, apesar de existir um conjunto de indícios e factos tais que não nos deixam qualquer margem de dúvida, a sociedade deve fechar os olhos e deixar o prevaricador com o poder de continuar a prevaricar? Se o Sócrates for ilibado em tribunal porque algum procurador se esqueceu duma diligência para recolher uma prova, aos nossos olhos volta a ser uma pessoa inocente? Se alguém tiver confessadamente feito mal a uma criança mas o crime já tiver prescrito, então essa pessoa continua moralmente inocente? Não me lixem.

Voltando ao Boaventura, sinto sempre algum desconforto quando rebenta um escândalo à laia do Me Too, mas a partir do momento que a bomba rebenta na esfera pública não podemos ignorar os factos, e se eles forem fortemente credíveis então que se tirem consequências de imediato.

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