Dos espetáculos de que gosto - À Primeira Vista

Finalmente consegui ver À Primeira Vista (Prima Facie), estreado há precisamente um ano, não foi fácil conseguir um bilhete para ver este fenómeno de reconhecimento unânime do público, não há quem tenha visto a peça e não recomende entusiasticamente vai ver, é forte, e muito gira.
Estamos a falar de um monólogo encenado por Tiago Guedes, com interpretação de Margarida Vila-Nova, baseado num texto da australiana Suzie Miller no rescaldo dos exageros do Me Too, onde qualquer homem que se mexesse perto de uma mulher era logo considerado um abutre (deem o devido desconto ao exagero da ironia, ok?), e aqui somos confrontados com a toxicidade e violência nas relações, o abuso sexual, o papel das vítimas e dos agressores, e sobre como é que a Justiça (com J maiúsculo) lida com isto tudo.
O texto joga com a ambivalência do que aos nossos olhos é um agressor ou uma vítima, a isso não será indiferente ter sido escrito por uma mulher, encenado por um homem e interpretado por outra mulher, e essa ambivalência é muito interessante para nos confrontarmos a nós próprios - e como seria se este texto tivesse sido escrito por um homem, encenado por uma mulher e interpretado por outro homem, será que no fim veríamos algo parecido? Certamente que não.
A peça diz-nos muitas coisas, consigamos nós ouvi-las todas, sejamos nós livres de preconceito e abertos de espírito para as conseguirmos escutar, uma dessas coisas é que nunca podemos fazer juízos precipitados, nós não sabemos, recorda-nos também que NÃO É NÃO, e que uma em cada três mulheres já foi alvo de abuso sexual.
A emoção da atriz assim que a peça terminou e a instantânea ovação de pé serão um claro sintoma de que a dor das vítimas é algo muito sofrido por grande parte da nossa comunidade, como sociedade temos mesmo que fazer melhor.
Já tinha gostado de a ver em Causa Própria, série da RTP, mas c’os diabos, que atriz portentosa esta Margarida Vila-Nova, todos os aplausos para si.
Que bela maneira de assim acabar a saison teatreira!
