Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BURRO VELHO

BURRO VELHO

18
Jun25

Dos meus livros - Afirma Pereira, António Tabucchi

BURRO VELHO

20250612_152908.jpg

 

Afirma Pereira, de António Tabucchi, conceituado escritor italiano que viveu durante uns anos em Lisboa, ganhou pó nas estantes lá de casa durante mais de vinte anos, romance sempre adiado, mas finalmente chegou a sua hora, boa hora essa em que o resgatei da estante.

Li-o avidamente num dia de férias, e quando se lê 150 páginas duma escrita escorreita, mas sem pressas, que demora o seu tempo, é sinal de que estamos a gostar do que estamos a ler, e eu gostei, muito.

O senhor Pereira é um senhor de idade, viúvo, só, confortavelmente instalado na sua vida estabelecida num Portugal amordaçado do final dos anos 30, quando o fascismo grassa Europa fora, quando a Espanha está assolada pela guerra civil, quando os submarinos de Mussolini espalham a força, quando a nossa polícia política começa a pôr as garras de fora em sintonia com os ares ameaçadores daquele tempo, da supremacia ariana, esses ares em que já acreditámos, no pretérito, nunca mais voltar a respirar, nessa altura tudo o que o senhor Pereira fazia era traduzir os seus autores franceses, falar com o retrato da esposa, recordar a infância e esperar pela morte, tudo isso enquanto comia as suas omeletes com ervas e bebia as suas limonadas, sim, acompanhámos imensas vezes o senhor Pereira nas suas monótonas refeições, mas foi este rame rame que nos familiarizou com a essência do senhor Pereira, um homem bom, apolítico, que vivia no passado sem saber lidar com o presente nem pensar no futuro.

Até que dois jovens atrevidos e intrépidos lhe irrompem na sua pacatez, sempre os jovens a trazer a disrupção, e um médico modernaço e sensível lhe explica a teoria dos blocos, que todos nós somos um conjunto de blocos governados por um eu hegemónico, e que esse eu hegemónico pode mudar ao longo da nossa vida, desnorteando o nosso senhor Pereira, sobretudo por o tentar convencer que o passado deve ser apenas uma memória boa, mas que enquanto estivermos vivos deve ser no presente que devemos querer estar.

A própria construção da narrativa, com a fórmula Pereira afirma, reforça a forma como ficamos presos ao desenlace, dando um início quase bucólico - por uma Lisboa a derreter de calor - lugar a uma intriga política, em que há mistério, mas também há a transformação de um homem decente, que resiste ao opressor, porque podemos não ser capazes de combater o mal, podemos nunca ter essa coragem de que só alguns heróis dispõem, mas o nosso silêncio jamais será comprado – porque é que isto soa a tão assustadoramente atual?

Afirma Pereira é um belíssimo livro, e muito imagético, talvez por a ação se desenrolar nas ruas que qualquer lisboeta conhece, eu próprio fui vizinho vários anos da redação do senhor Pereira, salvo seja, sendo que este belíssimo livro daria certamente lugar a um belíssimo filme, ups, quase me esquecia, o filme já existe, foi realizado em 1995 por Roberto Faenza com o grande Marcelo Mastroianni a fazer de senhor Pereira, não vejo a hora de descobrir maneira de ver o filme.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub