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BURRO VELHO

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13
Dez25

Dos espetáculos que adoro - A esta hora, na infância neva, de Victor Hugo Pontes para a Companhia Maior

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A Esta Hora, Na Infância Neva é um verso de Manuel António Pina, que Victor Hugo Pontes foi buscar para o título da sua nova criação de dança contemporânea para a Companhia Maior.

Começamos por ver em palco um nonagenário com um pujante bailarino de 30 anos, se para um, o gesto de rodar uma bola de basquete por trás do pescoço é inconsciente, para o outro, é um esforço que exige várias ações, e é isto que temos em A Esta Hora, Na Infância Neva, o confronto de corpos ágeis e estouvados de bailarinos jovens, com a fragilidade de corpos idosos, aquilo que eu já fui e ainda gostaria de ser, em confronto com aquilo que um dia virei a ser, um corpo marcado pela minha história, da infância à velhice.

Tal como na vida, um sopro veloz, em A Esta Hora, Na Infância Neva os momentos festivos e de exaltação saltitam com o medo da perda, da ausência, tal como na vida, vamos num instante da alegria à dor, e logo regressamos à festa para conseguirmos sobreviver.

Temos em palco um bailarino músico cheio de pinta, que nos leva com as suas canções, temos dois esplêndidos bailarinos com uma energia transbordante no movimento e no aconchego aos seis ‘maiores’, que nos exibem o seu orgulho, em serem velhos.

O tema da velhice, e a forma como os mais jovens se relacionam com os idosos, é algo de muito importante para mim, talvez por isso, não sei, me tenha comovido até às lágrimas na grande ovação final, que coisa tão boa ter podido estar ali naquela plateia, o Victor Hugo Pontes, o novo diretor artístico do TNSJ, é mesmo um coreógrafo genial.

No CCB.

 

18
Out25

Dos espetáculos que vejo - Entre outras coisas, a pereira e o real, de Miguel Pereira e Sílvia Real

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Os coreógrafos e bailarinos da nova dança portuguesa dos anos 90, Miguel Pereira e Sílvia Real, juntaram-se para esta performance “Entre Outras Coisas, a pereira e o real”.

O trocadilho do título marca o tom de comédia que atravessa a peça, um denominador em todas as peças de Miguel Pereira (não conheço tão bem a obra de Sílvia Real), neste espetáculo fragmentário que me deixou algo nostálgico, sentir a inquietação daquelas personagens em palco, meios perdidos num mundo que não só os assusta mas onde têm dificuldades em se encaixar, pelo menos foi isso que eu senti.

Depois de ter passado por terras como Torres Novas e Castelo Branco, esteve dois dias no CCB em Lisboa, no dia que eu assisti não seríamos mais de 30 pessoas, difícil a vida para os artistas que não dominam as artes e as redes de fazerem chegar a sua obra a mais público – eu cá conseguir ir e gostei muito.

 

17
Dez24

Do CCB, de Dalila Rodrigues e dos espetáculos que adoro - Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer, de Victor Hugo Pontes

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Que beleza inaudita. Vou repetir, que beleza inaudita.

O CCB encomendou ao coreógrafo Victor Hugo Pontes uma obra sobre os 50 anos da liberdade conquistada em Abril, neste tempo pleno de ameaças, e Victor Hugo Pontes decidiu enveredar pela liberdade do nosso corpo, pondo em palco 19 bailarinos a explorar a liberdade do que nos é mais inviolável, o nosso corpo, 19 bailarinos sempre despidos numa peça coral em que o coletivo é sempre mais forte, mas sempre com espaço para a nossa singularidade e privacidade, às vezes todos juntos somos fortes e avançamos, às vezes sozinhos somos vulneráveis e delicados.

Ver dança é ver corpos em movimento a transmitirem-nos emoções, encontro o prazer dessas emoções quer no virtuosismo do ballet clássico quer na dança moderna, mas depois da experiência quase traumática de Alice no País das Maravilhas no dia anterior, foi a redenção absoluta ver logo a seguir este Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer, o ultimo espetáculo que vi em 2024 foi provavelmente o melhor, aquele conjunto de 19 bailarinos formidáveis foram emoção a jorro, quer a dançar em silêncio, com uma batida mais eletrónica, a ouvir Bach ou Debussy ou a catarse final com o Freddie Mercury, foi emoção pura na forma da liberdade dos nossos corpos, sozinhos ou em grupo, como deverá ser sempre.

Bravo, bravíssimo. Muito obrigado ao Victor Hugo Pontes e ao CCB, aquele que tem uma visão artística desalinhada com a Senhora Ministra, hélas!

 

08
Mar24

Dos espetáculos de que gosto - Fuck Me, de Marina Otero

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Desperdicei algum tempo no início de FUCK ME, espetáculo de dança autoficcional da coreógrafa argentina Marina Otero, a tentar perceber qual era a fronteira daquela lesão na coluna com a realidade (está mesmo entravada como diz estar?) e a questionar-me se a nudez em palco acrescentava alguma coisa ou se seria apenas gratuita ou para chocar, distraí-me alguns minutos com estes pensamentos e não entrei logo na peça, tão pouco o começo inusitado me prendeu de imediato, mas quando me concentrei no que estava a ver e ouvir em palco deixei-me levar por aquela torrente, um tumulto violento e uma fragilidade imensa.

Como li algures, FUCK ME alterna entre o documentário e a ficção, entre a dança e a performance, entre o acaso e a representação, e conta-nos a história de um corpo que envelheceu, que se destruiu, que secou, que se automutilou a dançar e que agora já não consegue dançar, que já não consegue nada, um corpo que mirrou e que apenas sobrevive, e que num jogo de espelhos se projeta e resolve dançar no corpo de cinco bailarinos, um corpo que se repete e que vive nos corpos desses bailarinos, causando no espetador alguma inquietação na indecisão se foca o seu olhar nos dançarinos em palco ou na dançarina que Marina Otero foi e que os écrans nos mostram por trás.

Se FUCK ME é uma história de destruição, uma história que ao invés da vitimização opta pela vingança, de uma mulher que se vinga dos homens, do avô da ditadura argentina e dos homens que a magoaram mas de quem ela soube aproveitar-se, FUCK ME é também uma história de regeneração, de renascer, mas FUCK ME é sobretudo dança, é vermos corpos fluídos a dançar, a exprimir tudo isto e sobretudo a expressaram sensualidade, corpos prenhes de uma intimidade visceral, de sexualidade, de sexo, e não, a nudez em palco não foi gratuita.

O espetáculo foi televisionado e transmitido pela RTP2 (atenção às boxes ou à RTP Play), estando eu muito curioso para ver se a experiência que sentimos ao ver no palco do CCB todo este tumulto, toda esta forma ousada e destemperada de nos escancararem a intimidade da artista, todas aquelas imagens poderosas que nos ficaram gravadas na pele, resulta igualmente no pequeno écran da televisão, ainda assim parabéns RTP por também programar espetáculos que arriscam e que são arriscados.

 

25
Set23

Dos espetáculos de que gosto - Gust9723

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Para mim a dança é das artes mais livres à tua imaginação e aos teus sentidos, sobretudo num espetáculo de dança contemporânea não tens de entender tudo, se conseguires usufruir de coisas como o movimento, a energia, o som, o espaço, se isso te trouxer prazer sem teres de estar a querer interpretar e descodificar tudo a todo o momento, então está perfeito.

Em Gust9723, do coreógrafo Francisco Camacho, vemos corpos à deriva de rajadas de vento (gust, em inglês), vemos a catástrofe e o caos a ditar o movimento dos sobreviventes, vemos a morte a pairar e a vontade de se lhe escapar, não vemos erotismo, vemos sobrevivência.

Há um outro aspeto muito bonito nesta obra, que foi dançada pela primeira vez em 1997, que é vermos o envelhecer dos nossos corpos e não nos esquecermos que estes vão se adaptando mas não temos de desistir das coisas de que gostamos: no cast de hoje encontramos seis dançarinos que estiveram em palco na peça original (Begoña Méndez, Carlota Lagido, Filipa Francisco, Marta Coutinho, Miguel Pereira e Rolando San Martín), com nove novos e jovens intérpretes, formando um corpo de baile uníssono e muito coeso, não resistindo a destacar uma bailarina de quem não consegui desviar o olhar, Sofia Kafol.

Gostei muito, no CCB.

 

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