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BURRO VELHO

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10
Jun25

Dos filmes de que gosto - Ossos e Nomes, de Fabian Stumm

BURRO VELHO

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Sete da tarde, dia de neura, não te apetece ir já para casa e resolves enfiar-te numa sessão de cinema, que filmes estão agora, olha aqui um alemão e eu normalmente dou-me bem com os filmes alemães, gosto de ver filmes alemães não só pela língua, mas, sobretudo, pela sociedade alemã retratada que é sempre algo que me suscita muito interesse.

Ossos e Nomes (Knochen und Namen), de Fabian Stumm, que bela surpresa, será preciso estar no mood certo para apreciar o filme, admito, mas naquele dia às sete da tarde eu estava definitivamente com esse mood.

Boris e Jonathan são um casal de uma certa elite intelectual de Berlim, um escritor, o outro ator, ainda não estão propriamente em crise mas percebem que começam a estar distantes um do outro, já implicam mais do que conversam, já se irritam mais do que riem, com impactos na suas vidas profissionais, um escritor desinspirado e um ator que tende a misturar a realidade com ficção, sendo este jogo um dos aspetos mais estimulantes, a forma como os ensaios do filme se entrelaçam com a vida das personagens, a forma como a fala das personagens se entrecruza com a fala das personagens do filme dentro do filme.

Cada cena demora o tempo certo, não é um slow movie mas podemos respirar em cada cena, e os planos são normalmente muito depurados, desenquadrados, até meio desengonçados, muitas vezes só uma parede branca ou uma janela, quase como se estivéssemos num consultório a fazer terapia, sendo que para mim esta opção do realizador resultou muito bem.

Fabian Stumm escreveu, interpretou e realizou Ossos e Nomes, porque no fim somos todos apenas isso, ossos e nomes, gostei muito.

E o meu reconhecimento às pequenas distribuidoras que nos permitem ver estes filmes que levam tão pouca gente às salas de cinema.

 

05
Set24

Dos filmes de que eu gosto - A Terra Queimada, de Thomas Arslan

BURRO VELHO

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Este segundo filme de uma prometida trilogia do alemão Thomas Arslan, Terra Queimada (Verbrannte Erde, no original) é um policial à moda antiga, de poucas palavras e ação qb, parcimonioso, tenso, quase nostálgico, em que acabamos a torcer pelo ladrão profissional que rouba um quadro famoso de um museu de Berlim, Mulher ao Amanhecer, de Caspar David Friedrich, que não tem medo de despachar a sangue-frio um qualquer malfeitor mas que ainda segue uma ética, seja ela qual for. Muito bom.

 

23
Nov23

Dos filmes de que eu gosto - Céu em Chamas, de Christian Petzold

BURRO VELHO

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Não farão por mal, nasceram assim e têm dificuldade em fazer melhor, mas há pessoas amargas que estão sempre de sobrolho levantado e que só sabem lamentar-se para sugar a energia dos outros, que nunca conseguem desfrutar um momento por terem um nariz tão empinado, será que algum dia conseguirão perceber que não vale a pena ser assim?

O filme passa-se no norte da Alemanha junto à costa do mar Báltico, numa zona florestal que está a ser assolada por incêndios, facto que dá o título ao filme, CÉU EM CHAMAS (Roten Himmel, no original), e começando pelo que menos gostei, claramente Christian Petzold desconhece a ameaça de um incêndio florestal descontrolado, não sabe que o ar é quase irrespirável, que o fumo quase sufoca, que o perigo entranha-se na pele e não dá tréguas, e esse espectro ameaçador dos fogos é altamente inverosímil no filme (o que até se compreende porque grandes fogos florestais na Alemanha são um fenómeno raro), e não senti só falta desse sobressalto, senti falta de mais alguma inquietação nas personagens, mais sangue na guelra, mas não nos podemos esquecer que aqueles jovens não são do sul da europa mas sim de uma contida alemã protestante.

Neste filme plácido e bucólico, Leon é um filho típico dessa cultura protestante, para quem o dever e o trabalho estão sempre em primeiro lugar, para quem a culpa é sempre um fardo pesado que tem de carregar, para quem a ética e o carácter são pontos de honra e a inveja de quem vive de forma mais lúdica e despreocupada acaba por ser inevitável, e quando Leon está de férias com três outros jovens, leves e frescos, não consegue controlar os seus ciúmes e frustrações, sofrendo por desperdiçar todos os momentos em que os outros tentam resgatá-lo para um sorriso, entrando numa espiral quase destrutiva, da arrogância à amargura, da amargura ao isolamento, do isolamento à solidão, e por aí fora sempre em declínio.

Tal como habitual nos seus filmes, Petzold oferece-nos um twist dramático e inesperado no final, dando a possibilidade ao espetador de escolher, sem juízos ou moralismos, se essa pessoa encontra a redenção ou persegue no caminho da sobranceria e solidão.

Se Thomas Schubert é excelente com o seu Leon, Paula Beer (sempre presente nos filmes de Petzold) rouba todas as cenas com uma presença absolutamente solar. Bom filme este CÉU EM CHAMAS, vencedor do grande prémio do júri do festival de Berlim de 2023.

 

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