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BURRO VELHO

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28
Nov25

Dos filmes que adoramos - Foi Só Um Acidente, de Jafar Panahi

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Gosto verdadeiramente de cinema iraniano, é sempre uma janela aberta para um mundo tão diferente do nosso, mas, apesar de ir acompanhando minimamente as notícias sobre si, e de ser a única pessoa que já venceu os principais festivais de cinema (Cannes, Veneza e Berlim), nunca tinha prestado muito atenção aos filmes de Jafar Panahi.

Foi Só Um Acidente, vencedor da Palma de Ouro deste ano, é isso mesmo, começa com um simples acidente e - acrescentando o enredo progressivamente personagem a personagem – constrói um thriller slow cinema, não temos picos na tensão arterial, mas a tensão, a dúvida e o dilema estão sempre lá.

Claro que é um filme extremamente político, estamos a falar de alguém que encontra uma pessoa que pode ter sido o carrasco do regime que lhe arruinou a vida, mais político do que isto não há, mas é um filme muito intimista porque nos confronta com uma questão, mais do que a vingança, importa saber até quando vamos perpetuar a violência.

Tal como na vida real, às vezes as situações são tão trágicas que parecem absurdas, e há um sentido de nonsense que atravessa todo o filme que me agradou particularmente.

Um dos melhores filmes de 2025, o cinema iraniano nunca desilude (quem não aprecie que fuja disto como o diabo da cruz).

 

10
Out25

Dos ciclos de cinema - Os Anos de Ouro do Cinema Italiano

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No Teatro Campo Alegre, no Porto, já terminou, mas ainda está a decorrer no cinema Nimas, em Lisboa, um ciclo de cinema dedicado aos “Anos de Ouro do Cinema Italiano”, período áureo que começou logo a seguir ao final da Segunda Grande Guerra.

O programa é vastíssimo, 15 realizadores, 51 filmes, alguns inéditos em sala, muitas cópias restauradas, escolher o que ver é que era difícil, por isso concentrei-me num realizador de quem, creio, nunca tinha visto nada antes, Roberto Rossellini, muito reconhecido pela profunda sensibilidade histórica e humana dos seus filmes, um dos pais do neo-realismo italiano (e pai também de Isabella Rossellini, já agora).

O meu preferido foi Roma, Cidade Aberta (1945), um retrato poderoso da resistência italiana durante a ocupação nazi, símbolo da dignidade em termos de opressão, filmado logo após a libertação de Roma, combina ficção com documentário, a urgência e o sofrimento de um povo em luta. A atuação de Anna Magnani é memorável, a cena em que corre atrás de um camião nazi é absolutamente icónica.

A temática de como os alemães viveram a seguir ao fim da guerra sempre me despertou o maior interesse, e Alemanha, Ano Zero (1948) leva-nos a uma Berlim devastada pela guerra, onde Rossellini explora a desorientação moral e social através dos olhos de um jovem rapaz. A atmosfera sombria e o desespero silencioso refletem a ruína física e espiritual do pós-guerra, num retrato comovente da Alemanha (e não só) destruída.

Viagem a Itália (1954), protagonizado por Ingrid Bergman (casada com Rossellini) e George Sanders, marca uma transição de um cinema menos cru para um cinema mais introspetivo, acompanhando um casal inglês em crise durante uma viagem a Nápoles, revelando tensões emocionais e existenciais. Dizem que esta obra influenciou profundamente o cinema moderno, antecipando o estilo da Nouvelle Vague, talvez à época fosse muito à frente, confesso que gostei, mas que não me impressionou por aí além.

Bem-haja ao Nimas que faz estas programações, um grande privilégio poder ir ver este tipo de filmes, aos domingos de manhã, numa sala de cinema de rua.

 

18
Abr25

Dos filmes de que gosto - Vermiglio

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Vermiglio, da realizadora italiana Maura Delpero, vencedor do leão de prata no último Festival de Veneza,  é um filme passado no final da segunda grande guerra numa aldeia perdida dos Alpes italianos, donde dificilmente se sai e aonde a vida de fora não chega, salvo um jovem desertor que um dia foi lá procurar um esconderijo e acabou por mexer na vida e nos costumes da aldeia.

Tendo como ingredientes o isolamento e a religião, a simplicidade e o bucolismo de Vermiglio são de grande beleza, talvez lhe falte alguma chama mas é sem dúvida um belíssimo filme do realismo italiano, para ver sem pressas.

 

02
Jun24

Dos filmes que adoramos - La Chimera, de Alice Rohrwacher

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No IndieLisboa tive a felicidade de poder ouvir a italiana Alice Rohrwacher a falar-nos do seu LA CHIMERA, de a ouvir explicar-nos que os tombaroli eram as trupes de homens que nos anos 80 pilhavam sepulturas milenares para roubarem artefactos etruscos e os venderem a museus e colecionadores endinheirados, e LA CHIMERA é sobre esses tombaroli, um filme que segundo Alice é parte comédia, parte drama, parte aventura, que é parte profano e parte sagrado, parte divertido e parte chato, parte poético e parte cru - tão cru que algunstombaroli foram-no de verdade e a quem Alice foi buscar às cadeias, dito pela própria Alice -, um filme Felliniano que não é catalogável por ser tão livre e mágico, um filme que capta uma energia selvagem e alegre a que facilmente associamos aqueles italianos da Toscana dos anos 80, tão bem interpretados por um elenco notável, onde se destaca um dos meus atores fetish, Josh O’Connor, a divertidíssima e diva Isabella Rossellini, a brasileira Carol Duarte e Alba Rohrwacher, que admirável génio genético estas irmãs herdaram, minha nossa senhora.

Estreia em sala na próxima quinta-feira.

 

29
Abr24

Dos filmes que vejo - O Rapto, de Marco Bellocchio

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Em O Rapto, do italiano Marco Bellocchio, vemos uma igreja católica no século XIX obscura, fanática, grotesca, que impunha aos crentes as suas verdades dogmáticas (espetacular a cena em que o menino Edgardo explica a Pio IX o que é uma dogma, uma verdade da fé em que se acredita sem se fazer perguntas, sem se discutir, porque vem diretamente de Deus) como forma para estes aceitarem as maiores atrocidades dos eclesiásticos, mesmo quando sob as suas vestes de cordeiro cortavam cerce nos laços familiares de uma criança com a sua família, nomeadamente neste célebre caso em que um bebé judeu foi batizado à revelia de seus pais e como tal foi-lhes raptado para ser educado à luz da fé católica, educado para ser obediente e subserviente, educado para servir a Igreja de forma acéfala e deixar morrer o homem que há dentro de cada um de nós.

O filme é de um classicismo puro, austero, imponente, por alturas de 1850 vemos uma Bolonha, e uma Santa Sé, opulenta, rica, próspera, virtuosa nos seus rituais judeus e católicos, aonde as pessoas e as casas sujas e pobres não têm lugar, onde o poder do Vaticano seca qualquer réstia de humanidade, talvez por isso me tenha faltado uma nesga para aos meus olhos O Rapto ser um filme extraordinário, daqueles que nos tiram o fôlego, talvez tenha faltado isso mesmo, sangue na guelra, ou humanidade se preferirem.

 

06
Out23

Dos filmes de que eu gosto - O Sol do Futuro, de Nanni Moretti

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Em O Sol do Futuro (Il Sol dell’avvenire), Nanni Moretti troca a lambreta por uma trotinete e faz um dos melhores filmes do ano, onde cabe muita coisa, reflexões pessoais, nostalgias, crónica social e política, amor ao cinema, um filme leve, rezingão, intelectual e otimista, com um pezinho no musical, e pleno de ironia e de um sarcasmo bem mordaz, un capolavoro, que é como quem diz, uma obra-prima.

 

 

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