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BURRO VELHO

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13
Dez25

Dos espetáculos que adoro - A esta hora, na infância neva, de Victor Hugo Pontes para a Companhia Maior

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A Esta Hora, Na Infância Neva é um verso de Manuel António Pina, que Victor Hugo Pontes foi buscar para o título da sua nova criação de dança contemporânea para a Companhia Maior.

Começamos por ver em palco um nonagenário com um pujante bailarino de 30 anos, se para um, o gesto de rodar uma bola de basquete por trás do pescoço é inconsciente, para o outro, é um esforço que exige várias ações, e é isto que temos em A Esta Hora, Na Infância Neva, o confronto de corpos ágeis e estouvados de bailarinos jovens, com a fragilidade de corpos idosos, aquilo que eu já fui e ainda gostaria de ser, em confronto com aquilo que um dia virei a ser, um corpo marcado pela minha história, da infância à velhice.

Tal como na vida, um sopro veloz, em A Esta Hora, Na Infância Neva os momentos festivos e de exaltação saltitam com o medo da perda, da ausência, tal como na vida, vamos num instante da alegria à dor, e logo regressamos à festa para conseguirmos sobreviver.

Temos em palco um bailarino músico cheio de pinta, que nos leva com as suas canções, temos dois esplêndidos bailarinos com uma energia transbordante no movimento e no aconchego aos seis ‘maiores’, que nos exibem o seu orgulho, em serem velhos.

O tema da velhice, e a forma como os mais jovens se relacionam com os idosos, é algo de muito importante para mim, talvez por isso, não sei, me tenha comovido até às lágrimas na grande ovação final, que coisa tão boa ter podido estar ali naquela plateia, o Victor Hugo Pontes, o novo diretor artístico do TNSJ, é mesmo um coreógrafo genial.

No CCB.

 

28
Out25

Dos espetáculos que vejo - Os Maias, pela Companhia Nacional de Bailado

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A Companhia Nacional de Bailado levou à cena Os Maias, um bailado em três atos a partir da obra de Eça de Queiroz, uma estreia absoluta com coreografia e dramaturgia de Fernando Duarte.

Não será muito abonatório dizer que as coisas que mais me encheram o olho, ou o ouvido, foram o pianista António Rosado e os solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa, o riquíssimo guarda-roupa de José António Tenente ou os cenários e os videogramas com Lisboa em pano de fundo, quanto à dança em si, digamos, teve os seus momentos.

Pessoalmente não gostei nada do primeiro ato. Não percebo absolutamente nada de dança, não tenho quaisquer conhecimentos técnicos, mas enquanto espetador achei mal dançado, os desequilíbrios constantes, as piruetas interrompidas e aos saltinhos, as elevações que mal tiram os pés do chão, um corpo de baile com total falta de sincronismo, quando uns subiam a perna estavam já outros a descer, um Afonso da Maia sofrível, uma trapalhada – aprecio a emoção, o movimento, a fluidez, a técnica não me interessa tanto, mas quando no ballet clássico esta falta sinceramente o resto já não se vê.

Nos últimos dois atos a coisa melhorou, gostei bastante de algumas partes, de outras nem tanto, alguns passos de dança demasiado modernos para meu gosto – adoro dança contemporânea, mas se é um ballet clássico já adiro menos a modernidades -, mas gostei de poder acompanhar uma narrativa que todos conhecemos razoavelmente bem, as aventuras de Carlos da Maia e de Maria Eduarda, a ser dançada em cima de um palco, só essa experiência valeu a pena.

Não tive a sorte de ver a dançar os bailarinos da CNB que mais admiro, e o espetáculo não me encheu verdadeiramente as medidas, mas ainda assim é um enorme prazer ver estes espetáculos que a CNB nos oferece.

Só uma nota, na audiência estavam dezenas de crianças de tenra idade, todas muitíssimo bem-comportadas durante um espetáculo com duas horas de duração, parabéns aos pais.

 

13
Set25

Dos espetáculos de que gosto – Nôt, de Marlene Monteiro Freitas

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Depois de ter dividido a plateia no Festival de Avignon, entre vaias e aplausos, o espetáculo Nôt, da coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, teve uma reação mais entusiástica na Culturgest em Lisboa, o público gostou muito, e eu também.

Nôt significa noite em crioulo, e not significa não em inglês, a negação, o contrário, a antítese, e sinceramente agarrou-me o lado mais sombrio, violento, sanguíneo, o lado do pesadelo, quando foi mais para o lado do sonho, perdi-me um pouco, tenho alguma dificuldade em me conectar com o que é aleatório, quando parece que é ao calhas, é assim mas podia ser assado, e nalguns movimentos senti isso, mas foram apenas breves momentos onde não evitei um bocejo, logo a seguir voltei a ser agarrado por aquela dança de alta-voltagem.

Antes disso já me tinha aborrecido logo no início, brincar com xixi e cocó durante tanto tempo, para mim, não tem piada, é poucochinho, mas não sei se a ideia era divertir, se não seria antes provocar para de seguida nos surpreender desprevenidos.

Nôt é uma dança radical, livre, uma experiência visual e sonora excessiva, gostei muito.

Lisboa na vanguarda. A peça vai estar também no Teatro Municipal do Porto.

 

11
Jul25

Dos espetáculos que adoro - O Salvado, de Olga Roriz

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Muitos muitos anos antes de ter tido oportunidade de ver um espetáculo dançado ou coreografado pela Olga Roriz, já eu devorava tudo o que eram entrevistas ou reportagens sobre a bailarina, naquele tempo distante em que poder vê-la era algo inalcançável, mas hoje Olga Roriz está a festejar 70 anos de vida e 50 de carreira e eu já tive o privilégio de ver alguns dos seus espetáculos.

O Salvado é um solo intimista onde Roriz dança aquilo que quer dançar e que o seu corpo deixa dançar, onde brinca com as palavras e com a voz, e que voz tão bonita para dizer palavras tão bonitas, onde nos mostra um corpo forte e vulnerável, onde convoca o público para o seu humor, onde não deixa de ser uma bailarina engajada com o seu entorno e nos exorta para os perigos dos nossos dias, “… a caça hoje é para os homens com menos de 45 anos…”, mas desiluda-se quem quer ver um espetáculo coerente onde se percebe tudo direitinho, pelo menos para mim as suas coreografias não funcionam assim, para mim são fragmentos onde vamos sentindo coisas, são fragmentos de beleza, de exaltação, de comoção, de aperto, de qualquer coisa que nos faça sentir.

Gostei de todo o espetáculo, mas aquela última cena em que vemos Olga Roriz a dançar sentada numa cadeira giratória ao som de Spiegel im Spiegel, de Arvo Part, é algo que vai perdurar em mim por muito tempo, que beleza inaudita.

Ainda em cena no Teatro São Luiz (presumo que esgotadíssimo), mas ainda vai andar por várias salas do país.

 

21
Jun25

Dos espetáculos que adoro - Walking Mad / Cacti, pela Companhia Nacional de Bailado

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Enquanto apreciador e consumidor de arte gosto das várias formas de arte, dentro das artes performativas, aquelas em que o artista expressa a sua arte perante um público, uma audiência, é indescritível poder assistir a uma peça de teatro ou a um concerto, seja ele de música moderna, clássica, jazz, fado, ópera, não importa o estilo (dispenso a maioria da eletrónica e fujo do rock pesado).

Mas se me aparecesse uma lâmpada mágica e dissesse que até ao final dos meus dias eu só poderia ver ao vivo um destes tipos de arte, neste exercício absurdo de retórica, eu escolheria, sem hesitação, a dança, e se a lâmpada me obrigasse ainda a escolher entre a dança clássica ou a moderna, a moderna, pois então, é aonde consigo sentir uma conexão mais forte entre o artista em palco e aquilo que eu estou a sentir, não é preciso compreender absolutamente nada, só sentir.

A Companhia Nacional de Bailado tem atualmente em cena, até 29 de junho, dois espetáculos de dois coreógrafos suecos, Walking Mad, de Johan Inger, e o mais sonoro Cacti, de Alexander Ekman.

Cacti, ao som de Haydn, Beethoven e Schubert, é provocador, exuberante, divertido, é arrojo visual, e ao lado dos bailarinos temos o Quarteto de Cordas de Matosinhos, que momento lindo.

 Mas se gostei muito de Cacti, fiquei siderado com Walking Mad, ao ritmo do Boléro de Ravel, e também de Arvo Part, temos sensualidade, perigo, tensão, fisicalidade, graciosidade, sombras, linhas, movimento, sedução, proteção, coletivo, tudo com grande arrebatamento emocional.

Lamento que os nomes dos nossos bailarinos sejam tão desconhecidos do público, conhecemos o Marcelino Sambé e o António Casalinho e mais nenhum - não percebo patavina de dança, ou da técnica de dança, não tenho competências para um juízo sabedor, mas deixo-lhes aqui a minha homenagem com os nomes de dois bailarinos que me deixam sempre flabbergasted, Miguel Machado e Inês Ferrer, o meu olhar nunca os perde de vista, nem por um segundo.

Bravo! Bravíssimo!

 

24
Fev25

Dos espetáculos de que gosto - Forsythe/McNicol/Balanchine

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O ballet neoclássico afasta-se do ballet clássico porque não pretende contar uma narrativa mas sim focar-se na dança, no movimento, nas linhas, no virtuosismo e expressividade do bailarino, mas assente na técnica clássica, muitas vezes em pontas, e por isso dançado por bailarinos com formação clássica.

A Companhia Nacional de Bailado apresenta-nos agora três peça, estreadas entre 1992 e 2024, dos coreógrafos William Forsythe (Workwithinwork), Andrew McNicol (Upstream, uma encomenda para a CNB) e George Balanchine (Stravinsky Violin Concert), esta última acompanhada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Não gostei muito da primeira, adorei a segunda e gostei da terceira, sempre um deleite ver dança.

 

17
Dez24

Do CCB, de Dalila Rodrigues e dos espetáculos que adoro - Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer, de Victor Hugo Pontes

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Que beleza inaudita. Vou repetir, que beleza inaudita.

O CCB encomendou ao coreógrafo Victor Hugo Pontes uma obra sobre os 50 anos da liberdade conquistada em Abril, neste tempo pleno de ameaças, e Victor Hugo Pontes decidiu enveredar pela liberdade do nosso corpo, pondo em palco 19 bailarinos a explorar a liberdade do que nos é mais inviolável, o nosso corpo, 19 bailarinos sempre despidos numa peça coral em que o coletivo é sempre mais forte, mas sempre com espaço para a nossa singularidade e privacidade, às vezes todos juntos somos fortes e avançamos, às vezes sozinhos somos vulneráveis e delicados.

Ver dança é ver corpos em movimento a transmitirem-nos emoções, encontro o prazer dessas emoções quer no virtuosismo do ballet clássico quer na dança moderna, mas depois da experiência quase traumática de Alice no País das Maravilhas no dia anterior, foi a redenção absoluta ver logo a seguir este Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer, o ultimo espetáculo que vi em 2024 foi provavelmente o melhor, aquele conjunto de 19 bailarinos formidáveis foram emoção a jorro, quer a dançar em silêncio, com uma batida mais eletrónica, a ouvir Bach ou Debussy ou a catarse final com o Freddie Mercury, foi emoção pura na forma da liberdade dos nossos corpos, sozinhos ou em grupo, como deverá ser sempre.

Bravo, bravíssimo. Muito obrigado ao Victor Hugo Pontes e ao CCB, aquele que tem uma visão artística desalinhada com a Senhora Ministra, hélas!

 

16
Dez24

Dos espetáculos que vejo - Alice no País das Maravilhas, pela CNB

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Ir ao São Carlos ver o espetáculo de Natal da Companhia Nacional de Bailado é uma tradição caseira absolutamente preciosa, a modos que o espírito natalício se sintoniza mal vemos a Orquestra no fosso a afinar os instrumentos, tendo acontecido este ano na renovada casa da CNB, outro lugar de privilégio, o Teatro Camões em frente ao Tejo. Por aqui estamos felizes.

E se a ideia fosse ir ver um conto infantil para nos imbuirmos na magia natalícia, mais felizes ficaríamos, Alice no País das Maravilhas, encomenda de 2021 da CNB ao coreógrafo cubano Howard Quintero, inspirada no clássico infantil de Lewis Carroll, é um prodígio encantado de fantasia e metáforas, a atmosfera que nos invade é submersiva de tão sublime que é, graças ao trabalho de René Salazar, os figurinos são imaculados e os cenários incrivelmente bonitos e bem conseguidos, o contraste do tamanho de Alice antes e depois de beber a poção mágica é notável.

Mas a ideia era também ir ver dança, e aí, peço desculpa, mas não gostei mesmo nada, a coreografia em si mesma achei apatetada, digna de uma simples apresentação de uma Academia de Dança do primeiro ciclo, digo eu que de dança não percebo nada, a protagonista da sessão que eu vi (Tatiana Grenkova), achei trapalhona e desprovida de qualquer graciosidade, ai as mãos, ai as mãos, o corpo de baile imberbe, aquelas caras sempre em esforço a contar mentalmente o que vão ter de fazer a seguir, sobretudo as bailarinas, achei tudo muito sofrível – bati palmas à rainha Inês Ferrer e ao valete de copas Miguel Ramalho, bailarinos que admiro imenso, de resto, fiquei sentadinho sem aplaudir, não gostei, dos piores espetáculos que já vi pela CNB.

Até 29 de dezembro no Teatro Camões, em Lisboa.

 

28
Out24

Dos espetáculos de que gosto - Supernova / The Look

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Um bailado por dia, não sabe o bem que lhe fazia.

Ok, há um exagero nesta frase só para preservar a rima, mas vermos corpos a dançar, levados pela coreografia, pela música, pelas luzes, não precisarmos sequer de um texto para apreciarmos e sentirmos simplesmente prazer com o movimento, com as linhas, a conjugação de uma expressão visceral ou sensível com uma técnica exímia – sim, não suporto matacões a dançar, num palco, entenda-se -, ver um espetáculo de dança, seja contemporânea, um ballet clássico ou folclore, é das coisas que mais prazer me dá.

A Companhia Nacional de Bailado regressou a sua casa ao fim de largos meses fechada para obras ao abrigo do PRR, o Teatro Camões, na Expo, e estreou duas peças novas no seu repertório, Supernova, da dupla de coreógrafos Iratxe Ansa (espanhola) e Igor Bacovitch (italiano), e The Look, da israelita Sharon Eyal, não sei de qual gostei mais, adorei profundamente ambas as peças, vibrantes, intensas.

E que excelente corpo de baile, a brilhante técnica que está lá mas que não se mostra escancarada na cara do bailarino que a executa, tudo parece fluído e natural, notáveis, tendo de destacar o bailarino Miguel Ramalho, um dos bailarinos principais, e para mim o melhor, da CNB, sempre arrebatador.

Muito feliz este regresso ao Teatro Camões.

 

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