Dos filmes de que gostamos e dos festivais de Marvão – A História de Souleyman e o Periferias

O Periferias é uma verdadeira dádiva da descentralização cultural, levando filmes de autor e documentários às comunidades rurais da raia alentejana, projetando filmes ao ar-livre em aldeias e lugares históricos das cidades irmãs de Marvão e Valência de Alcântara, aquém e além-fronteira, tão emblemáticos como pátios do castelo, ruínas de cidades romanas, praças de bairros góticos ou lagares de azeite.
Se o outro grande baluarte da cultura marvanense – o FIMM Festival Internacional de Música de Marvão – leva a alta cultura à raia alentejana e arrasta multidões, com predomínio das gentes que vêm de propósito de Lisboa e do estrangeiro, atraídas pela elevadíssima qualidade do Festival - notem que esta minha afirmação é apenas baseada na minha perceção pessoal e não suportada com números oficiais -, o Periferias tem aumentado significativamente o número de espetadores, sendo estes sobretudo pessoas que vivem por aquelas terras, Marvão, Valência de Alcântara, Portalegre, Cáceres, Arronches, Badajoz, etc., é um festival de e para aquelas comunidades.
A História de Souleyman, do realizador francês Boris Lojkine, visionado em cima dos carris da estação de comboios (desativada) da Beirã, é um retrato cru e muito realista, quase num tom documental, de um jovem entregador de comida da Guiné-Conacri, que desespera por obter a autorização de asilo por parte das autoridades francesas, um jovem igual a tantos outros que vemos a toda a hora pelas ruas de Lisboa, jovens a que os Parisienses, tal como os Lisboetas, nem reparam, nem olham, só quando se irritam com as suas tropelias a andar de bicicleta na urgência de chegar mais depressa para amealhar mais uns euros, jovens silenciosos que vivem à margem e a quem nós fechamos os olhos, jovens sem amor mas que lutam contra o racismo, a exploração, o preconceito e as teias criminosas das redes de imigração.
Aquelas ruas, prédios e gentes parisienses podiam ser as nossas ruas, os nossos prédios e as nossas gentes de tão próxima que nos é esta realidade, pelo que A História de Souleyman além de um belo filme, vencedor de alguns prémios em Cannes e nos Césares, é também um sopro de empatia, impossível ficarmos indiferentes, sobretudo à última cena com a funcionária do departamento de emigração francês.
Note-se que o filme é ficcional e que o ator amador Abou Sangaré conseguiu finalmente os seus papeis depois da filmagem deste filme.
Viva a raia alentejana, viva o Periferias!




