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BURRO VELHO

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08
Fev24

Dos meus livros - Estilhaços, de Bret Easton Ellis

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Um livro sobre adolescentes milionários em Los Angeles tinha tudo para correr mal, uma espécie de Beverly Hills, 90210 dos livros, mas ESTILHAÇOS, uma ficção pseudo-autobiográfica de Bret Easton Ellis, autor mais ou menos consagrado de Hollywood, é uma belíssima surpresa, se por um lado é jovem, fresco e sofisticado, por outro é cru, sombrio, tóxico e paranoico, lendo-se as 600 e tal páginas de forma desarvorada e no fim continuamos zonzos por mais algum tempo.

 

03
Jan24

Dos meus livros - A Breve Vida das Flores, de Valérie Perrin

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Sou muito fiel aos meus escritores e escritoras de eleição mas de vez em quando gosto de pôr o pé em ramo verde e arriscar no desconhecido, e Valerie Perrin era-me uma perfeita desconhecida até ter ouvido falar do seu nome num podcast sobre política, porque não experimentar? Em boa hora o fiz e descobri este romance luminoso que li vorazmente da primeira à última página, que prazer tão grande que foi este ‘A Breve Vida das Flores’, passado algures num cemitério duma pequena aldeia da Borgonha.

 

23
Nov23

Dos meus livros - Memória de Rapariga, de Annie Ernaux

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Annie Ernaux escreve histórias assumidamente sobre si própria e foi adiando o regresso à jovem e inocente rapariga que no verão de 1958 quis viver os seus sonhos de forma desfrenada e às cicatrizes que lhe deixou marcas nos dois anos seguintes, que terá deixado toda uma vida, e só agora (em 2014), ao fim de 56 anos, teve capacidade para recordar e conseguir superar o que havia dentro de si para superar.

Ultimamente tenho regressado livro sim livro não a Ernaux, quase que tenho feito um pingue pongue entre Ernaux e Barnes e sinto agora necessidade de lhes fazer uma pausa e ler outras coisas, mas Memória de Rapariga é Ernaux como só assim Ernaux saber ser, corajosa, empoderada e torrencial na forma despudorada como alterna a sensibilidade com a aspereza duma faca afiada.

 

14
Out23

Dos meus livros - Amor & C.ª, de Julian Barnes

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O enredo de Amor & C.ª (Taking it over, no original) pode não nos suscitar à partida grande entusiasmo, um triângulo amoroso em que cada personagem nos relata por voz própria a sua visão da história, mas Julian Barnes concilia como ninguém a leveza e a graça com uma profunda e acutilante capacidade de observar as pessoas em ínfimos detalhes, pessoas capazes do amor, da sedução, da mentira, da humilhação, do desespero, pessoas presas a um passado plenas de nuances e ambivalências, que se repetem nas falhas, pessoas avisadas mas que se reinventam na procura desse amor ou que caiem sucessivamente na sua armadilha, como preferirem, pessoas que procuram o amor a prazo e outras que se convertem ao amor imediato, sem juros.

Com uma escrita fluída, divertida e intimista, que nos entretém e convoca ao mesmo tempo as nossas vivências, Amor & C.ª é um dos melhores livros de Barnes (e Barnes só tem livros bons), quase ao nível de A única história e O sentido do fim.

 

14
Set23

Dos meus livros - Baiôa sem data para morrer, de Rui Couceiro

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A enorme dependência de que hoje em dia, eu próprio e sucessivas gerações, temos dos smartphones, o medo e a solidão que nos assalta quando damos conta dessa necessidade de estarmos sempre a olhar para um écran, o apelo a uma maior lentidão e distanciamento na vida que levamos, tudo isso é o mote desta história com a qual sinto grande afinidade, e por isso, pelas recomendações altamente elogiosas que me chegaram via redes sociais, e até por achar piada a alguns tiques de escrita do autor, por tudo isso achei que ia gostar deste ‘Baiôa sem data para morrer’, mas tal não aconteceu.

Até há uma ideia, mas na minha opinião é uma escrita muito vaidosa, que quer ser onírica e bonita à força mas que enrola e enrola, muito redonda, com palavras caras e sempre empenhada em nos convencer que o autor tem um grande domínio, quer de vocabulário (ou talvez da técnica de consultar dicionários), quer de figuras de estilo cheias de criatividade, que prefere aporia a dificuldade, flagício a ignomínia, sabença a sabedoria, olvido a esquecimento, ou a morte procedeu à eliminação de mais um ser vivo a um simples morreu, e para mim esta teimosia em nos querer impressionar em cada linha tornou-se algo aborrecido e cansativo.

Pensei várias vezes em desistir, mas a curiosidade levou-me sempre a persistir, e até fui apreciando algumas partes ali e acolá, mas no global não me conquistou.

 

14
Jul23

Dos meus livros - O Quarto do Bebé, de Anabela Mota Ribeiro

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Sempre fui algo ambivalente em relação à Anabela Mota Ribeiro, há muitos anos que acompanho o seu trabalho e se globalmente aprecio, logo a seguir embirro com ninharias, às vezes interrogava-me mesmo se era genuíno ou pose, se não havia ali nada de fake.

Há uma clara similitude com a escrita de Annie Ernaux, de quem Anabela é devota e confessadamente admiradora, encontro em ambas a mesma forma de escrita e o mesmo propósito de escrita, o que para mim é um ótimo princípio sendo eu, também, um confesso entusiasta de Ernaux.

Aos meus olhos ‘O Quarto do Bebé’ não é um livro feminista, é sem dúvida um livro de grande sensibilidade feminina e sobre a condição feminina, que dá um chuto na vergonha e na culpa e nos oferece uma autoficção totalmente despudorada da doença, da fragilidade, do corpo, das origens (comoveu-me particularmente sempre que Ester do Rio Arco fala da mãe), do privilégio, com uma linguagem muito simples mas que denota um gosto esmerado por escolher sempre a palavra certa.

E sim, os bons cocós devem ser sempre celebrados.

É um livro imersivo, delicado, cru e, acima de tudo, bonito, muito bonito, e tão bem escrito.

 

11
Jul23

Dos meus livros - O Acontecimento, de Annie Ernaux

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Sou grande entusiasta e leitor voraz de Annie Ernaux, apesar de espaçar intencionalmente cada novo livro (e se eles se leem num ápice) para prolongar o mais possível o entusiasmo de ainda ter muitos livros para descobrir.

Reconhecemos logo a sua escrita, breve, sincopada, sôfrega, sem floreados, mas crua, certeira, desenvergonhada, dando-nos histórias autoficcionais onde discute sempre a condição feminina e nos oferece um retrato sociológico da França - e da Europa diria eu - pós grande guerra.

Se o livro é memorável, o filme baseado na sua história e realizado em 2021 pela francesa Audrey Diwan não lhe fica atrás.

 

27
Jun23

Dos meus livros - Cuidado com o Cão, de Rodrigo Guedes de Carvalho

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Escrito na pandemia e com os traumas de quem a relatou todos os dias na nossa televisão, demorei a conectar-me com o livro, andei ali arrastado até à página 115, aí deu-se um click e senti uma necessidade imensa de o ler sem parar, até que por volta da 315 deu-se outro click e todas as pontas se juntaram, lendo até ao fim, sem parar mas já sem pressa, esta belíssima história sobre a morte e redenção, num tom onírico (‘que se assemelha ao sonho’) muito bonito e comovente, talvez aquilo a que chamam realismo mágico.

“Um dia contigo ou um dia sem ti”, que é como quem diz, dou tudo para voltar a ter um só dia contigo, ou se impossível dou tudo para ter um só dia sem ti, em que não estejas permanentemente dentro do meu pensamento, em que os dias e noites voltem a ser leves.

Há quase 20 anos li do mesmo autor ‘A casa quieta’ e ‘Mulher em branco’, apesar de ter gostado francamente deixei de lado Rodrigo Guedes de Carvalho estes anos todos, e não fosse ter tido a sorte de me terem oferecido este CUIDADO COM O CÃO e provavelmente não o teria lido, muito obrigado.

 

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