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BURRO VELHO

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08
Dez25

Dos meus livros - A Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster

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No mais consagrado livro de Paul Auster, A Trilogia de Nova Iorque, algumas personagens saltitam entre três contos, três histórias sem ligação entre si, mas nelas todas encontramos, para além da Big Apple, escritores, detetives, cadernos vermelhos e personagens que se afundam em mistérios insólitos, que Auster tão bem congemina.

Não me parece que misturar essas personagens nos vários enredos acrescente alguma coisa à trama, pelo contrário, pareceu-me mais um exercício de estilo que só confunde o leitor, tal como a ressonância comum desses nomes - o Blue, o White, o Brown e o Black, a páginas tantas temos de puxar pela carola para conseguir distinguir uns dos outros -, mas de certa forma a escrita de Auster é paradoxal, e desconcertante, por um lado diverte-se em nos dificultar a vida, por outro é uma escrita muito escorreita e despretensiosa que nos faz querer sempre virar a página.

Cheguei tarde a Paul Auster, foi já depois da sua morte que o descobri naquele que foi o seu último romance – Baumgartner -, que me suscitou muita vontade de ler mais coisas suas, mas, não tendo desgostado da Trilogia, li-a de bom grado, sobretudo o terceiro conto, admito que talvez dê o capítulo Auster por encerrado, faltou-me algum fôlego.

 

21
Set25

Dos meus livros - Nada a Temer, de Julian Barnes

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Tenho um problema sério com os livros, quando não estou a gostar resisto-lhes até à última, empastelo semanas a fio mas não os abandono, uma espécie de pudor ou de má-consciência impedem-me simplesmente de os pôr de lado, escolher outro da estante e seguir alegremente com as minhas leituras, não, nada disso, se comecei a ler devo estoicamente ler até à última página, é a minha obrigação com o autor que dedicou tanto do seu tempo a escrevê-lo.

Isto é um disparate pegado, mas é assim que se passa comigo, creio só ter desistido uma vez de um livro – Memorial do Convento, tenho-o já na calha para tentar regressar-lhe em breve.

Julian Barnes é um dos meus romancistas de eleição, já li sete dos seus livros, dois deles são dos meus favoritos de sempre, daqueles de que na reforma vou querer reler muitas vezes – A Única História e O Sentido de um Fim -, mas Nada a Temer para mim foi um suplício, quais memórias divertidas e espirituosas sobre a morte qual carapuça, para mim foi só uma experiência funesta a pensar sobre a morte, socorro, tirem-me deste livro.

Não desisti propriamente, mas saltei muitas páginas pelo meio.

 

18
Jul25

Dos livros e dos filmes que amamos - Um Quarto Com Vista (sobre a cidade)

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Crescer na província nos anos 80 e gostares de cinema eram coisas (quase) incompatíveis, os filmes chegavam à sala de cinema com anos de atraso, a oferta nos dois canais de televisão era muito pouca, não tinhas acesso a revistas nem nada disso, era um mundo quase inacessível, mas os filmes infantis nas matinés dos domingos às 11 da manhã, esses ninguém nos tirava (será que às 11 da manhã se diz matiné, creio que sim).

Por isso, no meu caso, nem foram tanto os filmes que me despertaram o amor pelo cinema, porque poucos filmes via, foi mais todo um aparato à volta do mundo dos filmes que me seduzia.

As minhas primeiras memórias cinematográficas são um bocado tontas, risíveis até, um cartaz gigante na fachada do velhinho cinema Monumental, em Lisboa, do filme ‘Uma Ilha no Teto do Mundo’, a primeira vez que fui ao cinema numa vinda milagrosa à capital, do filme nada me lembro, mas o cartaz ficou para sempre.

Ou então as filas para ir ver o Africa Minha quando o cinema da terra esgotou durante sessões consecutivas, afinal era o grande vencedor dos óscares, e eu não pude entrar porque era pequeno, tive de aguardar pela reação da mãe que foi com a vizinha.

Ou então a música do Joe Cocker que o meu irmão ouvia a toda a hora na cassete, e que também me deixou à porta do Oficial e Cavalheiro, também não tinha idade para ver aquelas coisas que só os adultos podiam ver, mas que coisas seriam essas?

Ou então ver a Meryl Streep a fugir do Jeremy Irons em A Amante do Tenente Francês, filme que passou na RTP e de que não percebi muito mas cujas imagens da Cornualha me fascinaram para sempre.

Ou então ver os álbuns de fotografias que a madrinha recortava de jornais como o Diário Popular ou Correio da Manhã com imagens da Nathalie Wood ou Farrah Fawcett ou de filmes como Cotton Club ou Taxi Driver.

E algures em 1987 a RTP deu algumas imagens da cerimónia dos óscares, e nesse ano em que o vencedor foi Platoon, Um Quarto Com Vista Sobre a Cidade foi bastante nomeado, e arrecadou mesmo algumas estatuetas, e eu achava uma delícia sempre que diziam o nome da argumentista, um impronunciável Ruth Prawer Jhabvala, filme que terei conseguido ver alguns anos mais tarde, e que me marcou muito, me marcou como um dos primeiros filmes que vim com espanto e daquelas memórias de infância (já adolescência) e que te ficam gravadas para sempre.

Há alguns dias precisei de um livro para ler numa viagem, não sabia o que me apetecia ler, não tinha nenhum na pilha, não tinha tempo para ir a uma livraria, pelo que fui à estante e peguei num clássico que esperou pelo seu dia durante uma eternidade, Um Quarto Com Vista, do britânico Edward Morgan Forster, com vários romances também brilhantemente adaptados ao cinema.

A Room With a View é um romance ligeiro sobre costumes e boas maneiras da aristocracia rural inglesa, onde é inconcebível uma jovem querer viver sozinha em Londres e ter de carregar o fardo de andar com as chaves de casa consigo, uma jovem de boas famílias nunca abre a porta de casa, mas mais do que o humor que perpassa todo o livro, o que mais me impressionou no livro foi a forma como E. M. Forster, em 1908!!!, pode fazer tanto pela causa feminista e com tanta elegância, sem qualquer extremismo Forster escrevia que uma mulher podia ser dona da sua vontade e amar quem quisesse, isto há mais de 100 anos parece-me absolutamente extraordinário.

Li o livro de uma penada, e na mesma tarde em que o acabei fui à procura do filme para o rever, apenas recordava duas ou três cenas.

Creio que nunca antes tinha visto um filme tão pouco tempo depois de ter lido o livro, certamente que não, e ao longo do filme, que respeita em absoluto o texto original, por vezes cortaram alguns diálogos que eu tinha gostado especialmente, oh, não filmaram aquela parte, oh aquela cena faria toda a diferença, inevitável sentir isso em relação a uma experiência de leitura tão fresca, mas O Quarto Com Vista Sobre A Cidade – filme é sem dúvida uma excelente adaptação, do melhor que há, de O Quarto Com vista – livro.

O triunvirato James Ivory realizador, Ismail Merchant produtor e a dita Jhabvala argumentista deixou uma obra maravilhosa, mas deixem-me destacar também o elenco fabuloso de O Quarto Com Vista Sobre A Cidade, as rainhas Maggie Smith e Judi Dench, Helenha Bonham Carter, Julian Sands, e lá no meio de um conjunto de secundários incrível estava um jovem, e muito irritante, Daniel Day-Lewis.

 

15
Jul25

Dos meus livros - Levarei o Fogo Comigo, de Leila Slimani

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Ler Leila Slimani é um prazer imenso, é devorar um livro sem darmos pelo tempo a passar e aproveitarmos todos os bocadinhos para ler mais um pouco.

No terceiro capítulo da saga de uma família marroquina, Slimani é despretensiosa, despida de quaisquer malabarismos e sem nos querer convencer de que é uma grande escritora, e ali e acolá, sem estarmos a contar, invade-nos de poesia ou dá-nos um estalo com a dureza das palavras, ou das pessoas, melhor dizendo.

Levarei o Fogo Comigo é tradição, raízes, identidade, é intimidade e desejo, Levarei o Fogo Comigo é um livro extraordinário.

 

27
Jun25

Dos meus livros - A Caverna, de José Saramago

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A Caverna é um romance onírico sobre uma realidade distópica não muito distante, é impressionante como José Saramago há mais de 25 anos antecipou um mundo em que há sempre um vigilante a olhar para nós, em que cada vez mais a nossa individualidade é refém do consumo e do progresso, sim, quando não conseguimos resistir aos melhores smartphones estamos sempre, em certa medida, a escancarar uma parte da nossa intimidade a alguém que nos observa.

Saramago escreve sempre para além do literal, nesta alegoria construída a partir da nobre arte de trabalhar o barro, em cada frase há sempre um simbolismo, um regressar às nossas raízes, à liberdade de sermos quem somos, a valorizarmos os nossos tesouros muitas vezes negligenciados, o amor, a família, o trabalho digno, a bondade, o luxo de vivermos num tempo lento.

Admito que a minha leitura teria tido um fôlego diferente se o livro tivesse menos 30 ou 40 páginas, a páginas tantas senti-me um pouco estagnado e impaciente, mas A Caverna é um romance muito bonito, doce, simples, em que o supérfluo dá lugar à essência, mas mais do que uma certa candura e inocência que atravessa todo o livro, o que mais me seduziu foi o que sempre me seduz em Saramago, a sua prosa tão bonita, a facilidade com que escreve frases bonitas, a forma como com um vocabulário despojado constrói a sua própria linguagem com uma força poética muito rara.

 

20
Jun25

Das idas à Feira do Livro - Lisboa 2025

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Ir à Feira do Livro, já aqui perorei sobre as minhas idas à Feira do Livro - o que nos faz aguentar as filas e o calor para teimosamente irmos à Feira do Livro, quando os preços não são assim tão mais convidativos do que nas livrarias? Sim, eu sou daqueles que nunca faz grandes negócios, não sou bom a andar lá a esgravatar à procura de bons achados.

A resposta passa pela festa, pela algazarra, pelo frenesim à volta dos livros, pelo sítio bonito, por vermos caras conhecidas e autores a quem poder pedir um autógrafo, é imperdível, e as farturas no final, claro, é impensável não ir.

Este ano fui com apenas um livro na mira, vou lá comprar aquele, se por acaso encontrar aqueles outros dois também aproveito, mas é ir e vir embora, não me vou espalhar, pois bem, tá bem abelha – impõe a verdade que se diga que comprei de facto aqueles três desejados e os outros tiveram bons descontos, este ano quebrei o enguiço e fiz boas compras.

De vez em quando gosto de arriscar novos autores, sejam clássicos ou novatos, faço-o com gosto sempre que me oferecem um livro improvável, mas é-me difícil sair da bolha dos meus eleitos, sou-lhes fiel, demasiado, talvez, e nas minhas escolhas deste ano não ousei, não é desta que me vou aventurar por novos escritores ou escritoras.

Não estando minimamente preocupado em preencher quotas, notei, ainda assim, alguma diversidade nas minhas aquisições – maioritariamente homens com apenas duas mulheres (que muito admiro), metade dos autores estão vivos e metade já falecidos, a maioria dos livros foi escrita no século XX mas com alguns mais recentes, um deles acabadinho de ser lançado, oriundos de várias geografias e continentes, com predomínio dos anglo-saxónicos (não há como evitar), mas também com portugueses, um sul americano e uma francófona de origem marroquina a residir em Lisboa, achei interessante.

Gosto muito dos meus atores, destes e dos outros que andam lá por casa, e estou muito entusiasmado com as minhas próximas leituras, tão cedo não darei conta desta trupe.

E com o saco já tão pesado e a caloraça que estava, farturas nem vê-las.

 

18
Jun25

Dos meus livros - Afirma Pereira, António Tabucchi

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Afirma Pereira, de António Tabucchi, conceituado escritor italiano que viveu durante uns anos em Lisboa, ganhou pó nas estantes lá de casa durante mais de vinte anos, romance sempre adiado, mas finalmente chegou a sua hora, boa hora essa em que o resgatei da estante.

Li-o avidamente num dia de férias, e quando se lê 150 páginas duma escrita escorreita, mas sem pressas, que demora o seu tempo, é sinal de que estamos a gostar do que estamos a ler, e eu gostei, muito.

O senhor Pereira é um senhor de idade, viúvo, só, confortavelmente instalado na sua vida estabelecida num Portugal amordaçado do final dos anos 30, quando o fascismo grassa Europa fora, quando a Espanha está assolada pela guerra civil, quando os submarinos de Mussolini espalham a força, quando a nossa polícia política começa a pôr as garras de fora em sintonia com os ares ameaçadores daquele tempo, da supremacia ariana, esses ares em que já acreditámos, no pretérito, nunca mais voltar a respirar, nessa altura tudo o que o senhor Pereira fazia era traduzir os seus autores franceses, falar com o retrato da esposa, recordar a infância e esperar pela morte, tudo isso enquanto comia as suas omeletes com ervas e bebia as suas limonadas, sim, acompanhámos imensas vezes o senhor Pereira nas suas monótonas refeições, mas foi este rame rame que nos familiarizou com a essência do senhor Pereira, um homem bom, apolítico, que vivia no passado sem saber lidar com o presente nem pensar no futuro.

Até que dois jovens atrevidos e intrépidos lhe irrompem na sua pacatez, sempre os jovens a trazer a disrupção, e um médico modernaço e sensível lhe explica a teoria dos blocos, que todos nós somos um conjunto de blocos governados por um eu hegemónico, e que esse eu hegemónico pode mudar ao longo da nossa vida, desnorteando o nosso senhor Pereira, sobretudo por o tentar convencer que o passado deve ser apenas uma memória boa, mas que enquanto estivermos vivos deve ser no presente que devemos querer estar.

A própria construção da narrativa, com a fórmula Pereira afirma, reforça a forma como ficamos presos ao desenlace, dando um início quase bucólico - por uma Lisboa a derreter de calor - lugar a uma intriga política, em que há mistério, mas também há a transformação de um homem decente, que resiste ao opressor, porque podemos não ser capazes de combater o mal, podemos nunca ter essa coragem de que só alguns heróis dispõem, mas o nosso silêncio jamais será comprado – porque é que isto soa a tão assustadoramente atual?

Afirma Pereira é um belíssimo livro, e muito imagético, talvez por a ação se desenrolar nas ruas que qualquer lisboeta conhece, eu próprio fui vizinho vários anos da redação do senhor Pereira, salvo seja, sendo que este belíssimo livro daria certamente lugar a um belíssimo filme, ups, quase me esquecia, o filme já existe, foi realizado em 1995 por Roberto Faenza com o grande Marcelo Mastroianni a fazer de senhor Pereira, não vejo a hora de descobrir maneira de ver o filme.

 

30
Mai25

Dos meus livros - A Picada de Abelha, de Paul Murray

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Quando a leitura de um livro se torna imersiva, me faz querer aproveitar todos os momentos para ler mais uma página e ao fim de mais de 700 páginas não há ponta de cansaço ou aborrecimento, então para mim esse livro já é uma obra-prima, assim foi com A Picada de Abelha, do irlandês Paul Murray.

Não será bem uma saga familiar, porque acompanhamos esta família apenas num reduzido intervalo de tempo, ali à volta de um ano, mas mergulhamos na vida dos Barnes, uma família outrora endinheirada, com um avô rico a viver uma reforma dourada no nosso Algarve, antes da crise de 2008 assolar a Irlanda, e percebemos como o passado nunca se resolve sozinho, que um passado mal resolvido corrói-nos em lume brando, quando damos espaço aos nossos fantasmas a comunicação numa família torna-se sempre algo muito difícil.

A maioria dos leitores achará que a história se resume a nada e que é tudo muito aborrecido, sem ação para preencher tantas páginas, mas aqueles leitores que se deixam entusiasmar por enredos em que uma família se vai magoando, desiludindo, afastando, isolando, para essas pessoas que apreciam autores como Jonathan Franzen, então A Picada de Abelha é leitura certeira.

Murray oferece-nos sempre o olhar de cada elemento da família, o narrador vai saltitando entre o pai, a mãe e os dois filhos, e é impressionante o fulgor com que ora está na cabeça da mãe e a seguir na do filho adolescente, como transita entre personagens tão diferentes sempre de forma tão credível, aquela mãe a chegar aos 40 anos pensa mesmo aquilo, aquele filho de 12 anos usa mesmo aquela linguagem tão própria de adolescente, Murray constrói personagens muito completas, cada uma com o seu peso, com os seus traumas, com a sua argúcia, nós ficamos a saber efetivamente como aquelas personagens se sentem.

A escrita de Murray é sem dúvida muito rica, é trágica mas sempre com comédia de permeio, inteligente e criativa, que até brinca com coisas como a pontuação e formatação para moldar melhor cada personagem, alternando constantemente entre o humor e a sátira com a dureza, até crueldade, entre famílias, sim, entre famílias que se gostam, entre os melhores amigos, há todo um espaço para as nossas frustrações germinarem, a tensão está sempre lá, Murray permite que as suas personagens sejam simplesmente humanas, sem branquear os nossos lados sombrios.

Murray vai construindo uma trama em que as permanentes evocações do passado, flash-backs, vão desnovelando aos poucos segredos que nos conduzem a um final que acaba com estrondo, que nos vai deixar ou atónitos ou muito irritados, consoante o tipo de leitor que nós formos.

A Picada de Abelha, finalista do Booker Prize e eleito como um dos dez melhores livros de 2023 por jornais como o The New York Times, é um romance verdadeiramente arrebatador.

 

05
Mai25

Das minhas pazes com Saramago

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Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti, disse-lhe, e ele respondeu, Quero estar onde minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”, citação do livro ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de José Saramago, livro banido por Sousa Lara e Cavaco por ofender a moral cristã, perdoai-os Senhor.

 

Até hoje li apenas três livros de Saramago, ou melhor, apenas dois, Todos Os Nomes, de que gostei moderadamente, e Ensaio Sobre a Cegueira, que amei compulsivamente, do Memorial do Convento, apesar de várias insistências, nunca consegui passar das primeiras páginas.

Sempre tive uma relação algo ambígua com José Saramago, reconhecendo-lhe o génio, e até me deixando contagiar por ele, sempre nutri alguma embirração pela persona, o preconceito do artista comunista que apregoa uma coisa mas que procura para si os luxos paradisíacos numa ilha estrangeira, alguém quase ingrata que deixara para trás o seu país.

Perante artistas estrangeiros é-me mais fácil distanciar a obra da pessoa, por mais polémicos que possam ser ou ter sido, continuarei sempre a ser fã de Woody Allen, Kevin Spacey ou Vargas Llosa, por exemplo, mas, não entendo bem porquê, tal já não me acontece com artistas portugueses, é impensável para mim ler qualquer livro de José Rodrigues dos Santos.

E foi assim que nunca mais voltei a Saramago, até fui comprando alguns dos seus livros, mas nunca mais tive vontade de o ler, a embirração gratuita a sobrepor-se à literatura, é o que é, ou foi o que foi.

Há alguns anos, o belíssimo documentário José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, com a inesquecível banda sonora de Noiserv, quase que me conseguiu reconciliar com Saramago, mas se resolveu a minha embirração, na verdade voltei a esquecê-lo.

Recentemente tive o privilégio de visitar a casa onde residiu nos últimos anos da sua vida, em Tías, na ilha Canária de Lanzarote, e deixem-me partilhar convosco, que emoção que foi.

Estar no meio dos seus objetos, das suas memórias, ver o mesmo horizonte que ele via, conhecer as suas rotinas, ouvir as suas palavras, compreender a sua história, imaginar tantas personalidades fascinantes sentadas na mesa daquela cozinha, desde Soares, a Almodôvar ou o já aqui falado Vargas Llosa, ver a oliveira que levou da sua terra, ver uma foto da nora do rio da cidade onde eu nasci na capa de um dos livros da sua biblioteca, ver os gatos dos cunhados a dormirem sossegados, provavelmente já ali dormiriam quando Saramago ali se sentava, ver o despojamento como vivia, pressentir a paz e o amor com que se rodeava, testemunhar o seu amor pelos livros, por Pilar, por Portugal, foi mesmo muito emotivo.

A senhora que nos guiou nesta visita, encantadora, chama-se Alba, e ao falar-nos de José disse algo que quase me fez corrigi-la, que algures no tempo, no tempo de Cavaco, os portugueses se tinham zangado com Saramago, estive quase quase para lhe dizer, Alba, querida Alba, eu até podia embirrar com ele, mas nós portugueses nunca nos zangámos com ele, sempre foi acarinhado por nós, o Cavaco é um burro, ele não conta, mas acabei por ficar em silêncio, a respirar o ar de Portugal que se respira naquela casa de Tías, Lanzarote.

E se reconciliado eu já estava, vim de lá a sentir uma pulsão urgente de encontrar esse DVD algures perdido de José e Pilar, e regressarei definitivamente, sem demoras, aos seus livros, a qual ainda não sei, olho para a estante e vejo de imediato As Intermitências da Morte, A Viagem do Elefante, A Caverna e O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas, para as pazes serem completas, talvez vá mesmo procurar o sempre interrompido Memorial do Convento.

Obrigado José.

 

28
Mar25

Dos meus livros - Olhos Azuis, Cabelo Preto, de Marguerite Duras

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Ele gay apaixona-se por uma visão súbita de um outro ele de olhos azuis e cabelo preto, ela foi amante fugaz desses olhos azuis numa noite de verão, mais tarde ele encontra-a e, sem saberem dessa ligação comum ao homem de olhos azuis, ele paga-lhe para ela se esconder com ele numa casa em cima do mar, por onde passam muitos eles para irem à procura de sexo escondido no meio das rochas, e nesse período ela consegue encontrar-se com um terceiro ele, num quarto alugado, até aos dias entardecerem, ele, ela e ele de olhos azuis e cabelo preto, ela acaba por se apaixonar por ele mas não é correspondida, ele precisa dela para não esquecer aquele homem que os une, o de olhos azuis.

Aqui há dias precisei de escolher um livro com poucas páginas e fácil de transportar, fui à estante e peguei neste há muito adiado ‘Olhos Azuis, Cabelo Preto’, de Marguerite Duras, uma história desconcertante, e desconexa, de desamor, de angústia, de amores falhos, de amores que não se conciliam nem conseguem comunicar, de súplicas e lágrimas, de sofrimento sentido e infligido tão próprio de dois amantes que não se amam.

Olhos Azuis, Cabelo Preto é um romance de poucas páginas, talvez por isso o tenha lido até ao fim, porque queria descobrir o fim daquelas personagens e por encontrar no livro frases bonitas, palavras bonitas, há ali uma poesia sempre presente, mas é um livro de difícil leitura, foi-me difícil entrar na sua mecânica tão repetitiva, tão sincopada, poética e árida ao mesmo tempo.

A autora não tem de facilitar a vida ao leitor, mas sinceramente para mim estes Olhos Azuis, Cabelo Preto foi mais um exercício de estilo com que a escritora nos quis impressionar, ela domina esta arte de escrever com criatividade e engenho, mas lamentavelmente este leitor não ficou convencido, nem bem impressionado, tão pouco agradado.

Guardo na memória, já muito longínqua, é verdade, dois livros de Duras de que gostei muito, Dez Horas e Meia Numa Noite de Verão, e, sobretudo, O Amante, mas não sei se darei outra oportunidade a Duras, até para preservar esse gosto que lhe guardo.

 

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