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BURRO VELHO

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31
Out25

Dos filmes que adoramos - Depois da Caçada, de Luca Guadagnino

BURRO VELHO

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Depois da Caçada, do realizador italiano Luca Guadagnino, passa-se na comunidade intelectual da Universidade de Yale, nos EUA, e é um filme profundamente intelectual, daqueles que não nos facilita a vida, que nos dá muito texto e exige que estejamos concentrados no que estamos a ver para não perdermos o fio à meada.

Uma universidade americana está sempre na vanguarda do que se passa no mundo, nesta discussão dos símbolos e dos estereótipos de ser homem ou ser mulher, no poder enraizado, no ativismo que ao contrariar a corrente pode inverter e subverter as cadeias de poder, no cancelamento, na dúvida, eu lanço a acusação para o ar e fica a suspeita, como lidar com a verdade ou com a falta dela, como ser moderado e evitar que se prejudiquem pessoas inocentes.

Em Depois da Caçada não há moralismos nem verdades absolutas, mas há uma procura do bem e da moral.

Se Julia Roberts é incrível, tenho de destacar também o eterno esquecido Michael Stuhlbarg, mais uma vez a brilhar bem alto num filme de Guadagnino, sem dúvida um dos meus realizadores preferidos do momento (e mais prolífero e diversificado).

Se estiver num dia para usufruir da palavra e do pensamento, desfrute deste que é um dos melhores filmes de 2025, se quiser uma coisa mais leve, passe à frente.

 

 

26
Jun25

Dos filmes de que gostamos - Queer, de Luca Guadagnino

BURRO VELHO

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Luca Guadagnino é dos realizadores mais camaleónicos e entusiasmantes que temos atualmente a filmar, reconhecendo-lhe o veio criativo em filmes mais gore que eu dispenso (Suspiria ou Ossos e Tudo), assina alguns dos meus filmes ou séries preferidos dos últimos anos, - Io Sono L’amore, Call Me By Your Name, Challengers, ou We Are Who We Are -,sempre na procura da identidade e do amor, quase sempre um amor inaugural.

 Queer, o seu último filme estreado em Veneza em 2024, chega com o seu protagonista rotulado como o grande derrotado nas nomeações aos óscares do ano passado, portanto, um Guadagnino com Craig em estado de graça, nada podia falhar, certo?

Certo. Nada falhou. Mas.

A história de amor, sempre inaugural, é a de um cinquentão americano refugiado no México dos anos 50, um passado misterioso que só mais tarde é que nos é dado a conhecer, que se perde de amores por um jovem dandy absolutamente enigmático, impossível de decifrar, ele também é queer ou não, ele gosta de mim ou não, ele corresponde-me ou não, levando esta dúvida permanente e um amor tumultuoso a que Craig perca o seu controlo, afundando-se num mundo de álcool e opioides, ao ponto de se enfiar no meio da selva do Equador à procura duma alquimia qualquer que o faça comunicar telepaticamente com o jovem rapaz, se ele soubesse o que ele efetivamente pensa no seu íntimo, Craig, ou William Lee, alcançaria finalmente a sua redenção.

A história é linda, excessiva, por vezes arrebatada, descontrolada porque o amor arrebatado descontrola-nos, baseada no romance homónimo do senhor generation beat, William S. Burroughs, filmada com uma grande entrega dos corpos, corpos sempre transpirados, que vestem linhos impecáveis e malhas elegantes mas que não resistem à viscosidade tropical, corpos sujos, que se deixam sujar, que na falta do amor se deixam ir com mescal, tequilas, heroína, cocaína, o que houver.

A estética de Queer é portentosa, a estética dos filmes de Guadagnino é sempre portentosa, intensa, com cores saturadas, os cenários naíve a descomprimirem alguma opressão e repulsa que vamos sentindo, a seguir à elegância vem sempre a sujidade peganhenta, nos bares, nos quartos de hotel, na densidade da floresta tropical, toda aquela viscosidade quase que se nos agarra à pele.

Porquê o Mas?

Sendo Queer uma história de Burroughs, Burroughs está (e bem, muito bem) impregnado em todo o filme (tal como estava em O Festim Nu, de David Cronenberg), o seu universo de tripes psicadélicas alimentadas a alucinogénios em que tudo é um delírio, uma sequência de imagens sem sentido de quem está pedrado, e nessas partes eu perco-me, quando a personagem está a tripar e tudo o que vemos é tonto só porque sim, então aí eu perco o filme e espero que a viagem termine, e para mim estas quebras dramáticas fazem o filme perder a força.

Tenho ainda de falar de duas coisas.

Lesley Manville. Para mim Manville personifica a classe britânica, algures entre a dona de casa das Midlands e a aristocracia, e poder vê-la a divertir-se em modo bruxa escardicenta e alucinada no meio da selva foi imperdível.

A banda sonora, Guadagnino tem sempre o dom de escolher as suas bandas sonoras, ultimamente com a dupla Trent Reznor e Atticus Ross, em Queer com a provável colaboração do nosso, grande, Caetano Veloso, fantástico.

Pessoalmente não aderi em absoluto a Queer, por vezes perdi-lhe o interesse, mas Queer tem muitas coisas geniais e consegue ainda assim ser um excelente filme, não só pelo romantismo da história, mas também por toda a sua estética.

E Daniel Craig? Sim, foi muito injusto não ter conseguido a nomeação para os óscares (foi nomeado para os Globos e uma chusma de outros prémios), a sua luta à procura do amor e da redenção é assombrosa.

 

07
Mai24

Dos filmes que amamos - Challengers, de Luca Guadagnino

BURRO VELHO

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O italiano Luca Guadagnino realizou dois dos meus filmes favoritos de sempre, ‘Io sono l’amore’ e ‘Call me by your name’, entre outros títulos todos eles também muito bons.

Zendaya, o novo ícone de Hollywood e a rainha das passadeiras vermelhas, não tem tido, ou não tem sabido escolher, grandes papéis no cinema, mas bastou-me vê-la em ‘Malcolm & Marie’ para ter a certeza que ia ser uma das estrelas maiores da sétima arte.

Josh O’Connor é, para mim e a par de Paul Mescal, o mais entusiasmante ator da sua geração.

O argumentista Justin Kuritzkes era-me um perfeito desconhecido, mas sendo ele a inspiração de uma das personagens do trio de ‘Past Lives’, realizado pela sua mulher Celine Song, só podia ser bom.

Adoro ténis.

Feito este introito, fica claro que a fasquia das minhas expetativas para este CHALLENGERS estava a um nível lá bem nas alturas.

A sessão a que assisti estava razoavelmente cheia, uma sala heterogénea com pessoas de todas as idades, com muitas senhoras de idade avançada, mas também com muitos adolescentes, talvez atraídos pelo chamariz do filme desportivo - precisamente o mesmo que deve estar a afastar muito boa gente deste filme, oh, é mais um filme de uns mafarricos a bater umas bolas com uma raquete -, e o meu pensamento foi, esta rapaziada vem ao engano, eles não vão perceber a grande densidade deste argumento, porque dificilmente aos 18 anos já viveste histórias de amor torrenciais que te obrigaram a fazer escolhas difíceis, a velha história, a velha dúvida, queremos um amor que não nos dá descanso mas que chispa faísca por todo o lado, ou alguém ao nosso lado que nos ama e é feliz ao nos amar sem nada exigir.

Mas decerto que me enganei, para além de um triângulo amoroso complexo, feroz, quase a roçar o tóxico sem nunca chegar a ser perverso, que transborda desejo, rivalidade e competição, que se joga todo em todos os pontos jogados num encontro de ténis, que avançando e recuando na história nos liga à eletricidade, que nos energiza até ao match point, até sabermos se vence a serenidade ou a montanha russa, ou talvez não, estivemos sempre agarrados à alta voltagem das batidas das bolas, da estopada do som sempre que a raquete acertava na bola, das bolas que vinham a queimar na nossa direção e que nos faziam desviar na cadeira, mais não fosse e aqueles jovens que possam ter ido atrás de um filme de desporto viram grandes e frenéticas sequências de ténis, e, cereja em cima do bolo, a fantástica banda sonora techno de Trent Reznor & Atticus Ross, aumentando assim ainda mais a potência deste Challengers, um misto de melodrama intimista com a tensão de uma final do US Open (no caso um challenger) e o ritmo batido de uma discoteca.

A dupla de atores masculinos é incrível, o Mike Faist aguenta-se lindamente ao lado do bestial Josh O’Connor, de uma subtileza sem igual, mas se Luca Guadagnino já tinha feito de Thimotée Chalamet uma estrela, agora pôs Zendaya lá nos píncaros, a força com que agarra todas as cenas, a fome com que a câmara está sempre à procura dela, inesquecível.

A fasquia estava alta? Estava, mas foi largamente superada, um dos melhores filmes do ano.

 

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