Dos filmes de que gostamos, das noites especiais e ainda (por fim) do Periferias – A Quinta, de Avelina Prat

Galegos faz fronteira com a aldeia vizinha La Fontañera, sendo já tradição do Periferias que, numa das noites do Festival, a tela do filme esteja do lado de lá da fronteira, e as cadeiras dos espetadores do lado de cá, o ecrã em Espanha, as pessoas em Portugal, esta ausência de fronteiras e de barreiras é muito bonita e simbólica, especialmente numa altura de tanta matança e sofrimento por causa das fronteiras.
O filme escolhido foi A Quinta, da realizadora valenciana Avelina Prat, uma produção catalã, filmada sobretudo no Minho, com atores espanhóis a falarem português, e atores portugueses a falarem espanhol, a mistura de dois povos consumada com toda a naturalidade, a naturalidade que quem vive na raia conhece tão bem.
Nos dias que correm, as coisas tendem a ser todas muito literais, a literalidade é algo que me assusta, aonde é que fica o espaço para o mistério, para a ironia, para o humor, para a literatura, para o segundo sentido, e A Quinta brinca muito com a literalidade, nem tudo o que parece é.
Além da literalidade, A Quinta assenta noutros três pilares muito interessantes: a identidade, uma identidade que não é sólida, a identidade do ser humano ao longo da vida não é imutável, tem nuances; a confiança, as pessoas confiam umas nas outras, mesmo sabendo que estas por vezes lhes mentem; e o bucolismo, deixar o tempo discorrer lentamente.
Literalidade, identidade, confiança e bucolismo, quatro ideias que retenho do filme, onde destaco a interpretação de duas atrizes portuguesas, a para além de maravilhosa Rita Cabaço – há muitos anos que a sigo atentamente e é sempre assombrosa de tão boa que é, desde o drama mais pesado à comédia mais nonsense -, e a venerável Maria de Medeiros, que está tão deliciosa como as pessoas da minha geração a recordam em filmes como Henry & June ou Pulp Fiction.
E se gostei muito do filme, a noite em si foi deveras especial.
A presença da própria Inês de Medeiros, que no final ficou um pouco à conversa com a plateia, radiosa.
As estrelas cadentes, em plenas Perseidas, que caíram durante a sessão e provocaram um bruáaa de espanto.
A cena passada num quintal do Minho, com galinhas amarelas portuguesas, e onde estamos a ver moscas a voar misturadas em dois planos, as que voavam dentro da tela no quintal do Minho e as que voavam bem ali à nossa frente iluminadas pelos projetores.
O grande rafeiro alentejano que andava pelo meio das cadeiras até se ter deitado pachorrentamente aos pés de um de nós.
E se no início a Câmara Municipal de Marvão disponibilizou carrinhas para nos levar até à fronteira, no regresso optámos por descer a pé pelas cercanias do monte, numa noite de lua cheia.
Há filmes muitos bons e há noites perfeitas.
Obrigado Periferias, para o ano há mais.







