Dos ciclos de cinema - Os Anos de Ouro do Cinema Italiano

No Teatro Campo Alegre, no Porto, já terminou, mas ainda está a decorrer no cinema Nimas, em Lisboa, um ciclo de cinema dedicado aos “Anos de Ouro do Cinema Italiano”, período áureo que começou logo a seguir ao final da Segunda Grande Guerra.
O programa é vastíssimo, 15 realizadores, 51 filmes, alguns inéditos em sala, muitas cópias restauradas, escolher o que ver é que era difícil, por isso concentrei-me num realizador de quem, creio, nunca tinha visto nada antes, Roberto Rossellini, muito reconhecido pela profunda sensibilidade histórica e humana dos seus filmes, um dos pais do neo-realismo italiano (e pai também de Isabella Rossellini, já agora).
O meu preferido foi Roma, Cidade Aberta (1945), um retrato poderoso da resistência italiana durante a ocupação nazi, símbolo da dignidade em termos de opressão, filmado logo após a libertação de Roma, combina ficção com documentário, a urgência e o sofrimento de um povo em luta. A atuação de Anna Magnani é memorável, a cena em que corre atrás de um camião nazi é absolutamente icónica.
A temática de como os alemães viveram a seguir ao fim da guerra sempre me despertou o maior interesse, e Alemanha, Ano Zero (1948) leva-nos a uma Berlim devastada pela guerra, onde Rossellini explora a desorientação moral e social através dos olhos de um jovem rapaz. A atmosfera sombria e o desespero silencioso refletem a ruína física e espiritual do pós-guerra, num retrato comovente da Alemanha (e não só) destruída.
Já Viagem a Itália (1954), protagonizado por Ingrid Bergman (casada com Rossellini) e George Sanders, marca uma transição de um cinema menos cru para um cinema mais introspetivo, acompanhando um casal inglês em crise durante uma viagem a Nápoles, revelando tensões emocionais e existenciais. Dizem que esta obra influenciou profundamente o cinema moderno, antecipando o estilo da Nouvelle Vague, talvez à época fosse muito à frente, confesso que gostei, mas que não me impressionou por aí além.
Bem-haja ao Nimas que faz estas programações, um grande privilégio poder ir ver este tipo de filmes, aos domingos de manhã, numa sala de cinema de rua.

