Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BURRO VELHO

BURRO VELHO

24
Ago25

Dos filmes de que gostamos, das noites especiais e ainda (por fim) do Periferias – A Quinta, de Avelina Prat

BURRO VELHO

20250811_235930.jpg

 

Galegos faz fronteira com a aldeia vizinha La Fontañera, sendo já tradição do Periferias que, numa das noites do Festival, a tela do filme esteja do lado de lá da fronteira, e as cadeiras dos espetadores do lado de cá, o ecrã em Espanha, as pessoas em Portugal, esta ausência de fronteiras e de barreiras é muito bonita e simbólica, especialmente numa altura de tanta matança e sofrimento por causa das fronteiras.

O filme escolhido foi A Quinta, da realizadora valenciana Avelina Prat, uma produção catalã, filmada sobretudo no Minho, com atores espanhóis a falarem português, e atores portugueses a falarem espanhol, a mistura de dois povos consumada com toda a naturalidade, a naturalidade que quem vive na raia conhece tão bem.

Nos dias que correm, as coisas tendem a ser todas muito literais, a literalidade é algo que me assusta, aonde é que fica o espaço para o mistério, para a ironia, para o humor, para a literatura, para o segundo sentido, e A Quinta brinca muito com a literalidade, nem tudo o que parece é.

Além da literalidade, A Quinta assenta noutros três pilares muito interessantes: a identidade,  uma identidade que não é sólida, a identidade do ser humano ao longo da vida não é imutável, tem nuances; a confiança, as pessoas confiam umas nas outras, mesmo sabendo que estas por vezes lhes mentem; e o bucolismo, deixar o tempo discorrer lentamente.

Literalidade, identidade, confiança e bucolismo, quatro ideias que retenho do filme, onde destaco a interpretação de duas atrizes portuguesas, a para além de maravilhosa Rita Cabaço – há muitos anos que a sigo atentamente e é sempre assombrosa de tão boa que é, desde o drama mais pesado à comédia mais nonsense -, e a venerável Maria de Medeiros, que está tão deliciosa como as pessoas da minha geração a recordam em filmes como Henry & June ou Pulp Fiction.

E se gostei muito do filme, a noite em si foi deveras especial.

A presença da própria Inês de Medeiros, que no final ficou um pouco à conversa com a plateia, radiosa.

As estrelas cadentes, em plenas Perseidas, que caíram durante a sessão e provocaram um bruáaa de espanto.

A cena passada num quintal do Minho, com galinhas amarelas portuguesas, e onde estamos a ver moscas a voar misturadas em dois planos, as que voavam dentro da tela no quintal do Minho e as que voavam bem ali à nossa frente iluminadas pelos projetores.

O grande rafeiro alentejano que andava pelo meio das cadeiras até se ter deitado pachorrentamente aos pés de um de nós.

E se no início a Câmara Municipal de Marvão disponibilizou carrinhas para nos levar até à fronteira, no regresso optámos por descer a pé pelas cercanias do monte, numa noite de lua cheia.

Há filmes muitos bons e há noites perfeitas.

Obrigado Periferias, para o ano há mais.

 

21
Ago25

Das curtas-metragens que vejo e ainda do Periferias - Happier, happier, happier

BURRO VELHO

20250813_212313.jpg

 

Outra das noites especiais do Periferias teve como protagonista principal o músico David Santos, mais conhecido por Noiserv, um dos músicos que mais toca no meu Spotify, admito.

Começou num dos lugares mais especiais da Serra de São Mamede, as ruínas da cidade romana da Ammaia, no sopé de Marvão, com o Noiserv a interpretar duas das suas músicas, seguido da sua saborosa curta-metragem Happier, Happier, Happier, que, num tom documental, acompanha de forma divertida um rocambolesco convite que Noiserv recebeu para atuar na televisão pública chinesa, cinema não é só ficção de grande fôlego, também são pequenas histórias contadas de forma simples.

Mais tarde, depois da visualização de FLOW, vencedor do óscar para melhor filme de animação de 2024, o público foi convidado a ir para um bar ouvir Noiserv a passar música.

O Periferias a criar vínculos e misturar as populações vizinhas, a ser mais do que uma mostra de cinema, muito interessante.

 

20
Ago24

Da tragédia da Palestina e do milagre do cinema - festival Periferias e Bye Bye Tibériade

BURRO VELHO

Screenshot_20240819_133606_IMDb.jpg

 

O festival de cinema de Marvão – PERIFERIAS – é um evento com várias dimensões, arte, direitos humanos e ecologia, mas é sobretudo uma montra de filmes independentes que possibilita às gentes da raia ver filmes que normalmente não lhes estão acessíveis, procurando assim trazer públicos novos para o cinema e sendo uma fonte de cultura para quem vive e visita esse paraíso que são as terras da Serra de São Mamede.

Os filmes são projetados normalmente ao ar-livre e sempre em sítios muito especiais, como pátios de castelos, estações de comboios, lagares de azeite, cidades romanas ou praças públicas, localizados ou no concelho de Marvão ou da cidade vizinha do outro lado da fronteira, Valência de Alcântara.

Um dos filmes exibidos foi BYE BYE TIBERÍADE, da jovem realizadora francesa Lina Soualem, que quis oferecer à sua mãe este documentário, Hiam Abbass, atriz franco-palestiniana consagrada e conhecida de todos, por exemplo da série Succession.

O filme acompanha quatro gerações de mulheres e recua até 1948, altura da fundação do estado de Israel e da expulsão dos bisavós da realizadora da sua casa, quando a sua aldeia, junto do lago Tiberíades, foi destruída pelos soldados, sendo que nessa fuga desesperada uma das filhas, tia-avó da realizadora, acaba como refugiada na Síria, impossibilitada para sempre de se juntar ao resto da família devido ao fecho das fronteiras.

Ao testemunharmos a história das quatro gerações desta família, uma família que não se deixa abater mas que tem as suas próprias convulsões internas, quando Hiam Abass se começa a sentir atrofiada num espaço tão fechado e resolve partir acentua ainda mais o drama das separações forçadas e o das fronteiras impostas pelo invasor, sendo comovente não só a reunião da família ao fim de tantos anos (em 2018), como ver os espaços das suas infâncias engolidos pelos colonatos (Deir Hanna) e controlados pelas tropas israelitas.

Não sendo um filme político, a realizadora rejeitou fazer dele um panfleto antiguerra, mas BYE BYE TIBERÍADE tem tanto de amor às quatro gerações de mulheres desta família, como tem de mensagem política, ao vê-lo talvez possamos compreender um pouco melhor o drama que as famílias palestinianas estão a viver, aproximando-nos um pouco mais dos seus corações, tornando-nos um pouco mais compassivos, as crianças de carne-e-osso que vemos inocentemente a brincar podem ser aquelas que agora morreram debaixo dos escombros de uma escola ou hospital, aquelas que para a generalidade de nós ocidentais têm sido apenas números distantes.

Voltando ao PERIFERIAS, este filme foi exibido na aldeia espanhola de La Fontañera, sendo que a tela estava do lado da fronteira, Espanha, e as pessoas que assistiam estavam sentadas em cadeiras postas do lado de cá, Portugal, trazendo uma simbologia fortíssima ao privilégio de que é podermos viver num mundo sem fronteiras, ou melhor, num mundo em que ambos os lados da fronteira são amigos.

Viva o Periferias, viva a raia, e salve-se a Palestina!

 

Screenshot_20240819_133222_Gallery.jpg

 

14
Ago23

Das coisas bonitas - Periferias

BURRO VELHO

WhatsApp Image 2023-08-14 at 10.16.49.jpeg

 

Bravas são as gentes e associações que pelo nosso país fora promovem a descentralização, e muito interessante a forma como as raias dialogam, o Periferias é um excelente exemplo disso, o festival de cinema de Marvão, integrando agora também Valência de Alcântara, município pertencente à vizinha Cáceres.

Procura implantar uma cultura de cinema criando um público mais consciente, em contacto com a arte, a diversão e o pensamento crítico, e assim se juntaram as vertentes de ambiente e direitos humanos.

Citando o Rui Pedro Tendinha, é um festival de pessoas e de afetos cinéfilos, onde em espaços ao ar-livre como castelos, ruínas da cidadã romana, estações de comboios, lagares, museus, praças, piscinas, centros culturais, tudo sítios muito bonitos, podemos conviver com gente giríssima e assistir a concertos, exposições, discussões, fazer percursos, e claro, cinema de autor de primeiríssima qualidade. Viva o interior, viva a raia alentejana, viva o cinema, e longa vida ao Periferias. Parabéns!

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub