Da nossa sociedade - imigrantes ricos e imigrantes pobres

Ainda por ocasião da Festa do Cinema Francês, que eu muito aprecio e à qual procuro sempre assistir, dei por mim, na lotada sala de cinema São Jorge, no meio de uma esmagadora maioria de espetadores franceses, ou francófonos, uma elite que por algum motivo veio morar para Lisboa - muitos para gozar a sua reforma dourada à custa de borlas fiscais de que à época beneficiavam - e que trouxe os seus hábitos culturais, que tem os seus filhos no Liceu Francês ali nas Amoreiras, que arrebanhou todo o bairro de Campo de Ourique e começou a abrir os seus pequenos negócios carregadinhos de um charme burguês do mais bonito que há, comunidade essa que vive fechada no seu mundo privilegiado e que interage o mínimo possível com os locais, diz quem os conhece de perto que nem nos apreciam por aí além e que tão pouco gostam especialmente de Lisboa, dificilmente saem dos seus trilhos, ok, o ar da Caparica já lhes começa a ser respirável e depois há sempre umas vernissages, cocktails ou até mesmo uma Festa de cinema uma vez por ano.
Tirando o facto de em muito contribuem para encarecer estupidamente o custo de vida lisboeta, gosto de que todos os franceses queiram vir morar para Lisboa, tudo o que seja ar fresco é bom, o cosmopolitismo é um privilégio enorme das grandes cidades, ponto.
Também acredito que esse cosmopolitismo, ou multiculturalismo, se preferirem, tanto acontece num sentido mais ascendente, como descendente, sendo eu assaltado por esta reflexão, porque é que é comummente aceite por todos nós, que em relação aos imigrantes de outras paragens, que vieram para trabalhar e conseguirem dar uma vida melhor aos seus, podemos exigir-lhes que se adaptem ao nosso modo de viver, aos nossos valores, à nossa cultura, até à nossa língua, sendo que não temos o mesmo padrão de exigência com a comunidade francesa – dirão, ah mas os franceses são europeus como nós, não há diferenças (podemos sempre perguntar-lhes se nos veem de igual para igual, tenho cá as minhas dúvidas), talvez, mas palpita-me que o facto de serem brancos, bonitos, educados e ricos fá-los aos nossos olhos mais merecedores da nossa empatia do que outras comunidades mais pobres, acabrunhadas e com um tom de pele mais escuro. Mas não somos racistas, dizem.



