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BURRO VELHO

BURRO VELHO

18
Abr24

Das séries que eu adoro - Ripley

BURRO VELHO

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Ripley pode muito bem vir a ser a melhor série de 2024, que portentosa obra-prima.

A partir do muito aclamado policial de Patricia Highsmith - ‘O talentoso Mr. Ripley’ -, tão bem e tantas vezes já adaptado ao cinema, a última das quais (que eu saiba) em 1999 pelo falecido Anthony Minghella, com Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett e Philip Seymour Hoffman (!!!), nesta série de 8 episódios de Steven Zaillian temos todo o tempo do mundo para testemunharmos as profundezas mais negras do ser humano, a ambiguidade de quem num momento suscita empatia e logo a seguir solta a besta inominável dentro de si, oito episódios em que estamos sempre expectantes no que pode acontecer a seguir, em que um simples ascensor dos anos 60 pode não ser só um simples ascensor, em que um gato majestoso que nos convoca com a força do seu olhar pode não ser simplesmente só um gato, onde tudo pode ser aquilo que aparenta ser ou não, onde o belo coabita sempre com o negro, são oito demorados e depurados episódios em que ansiamos por ver como a maldade displicente vai conseguir disfarçar-se sem mácula, onde nunca nos falta o ar mas estamos sempre em contenção, é a mestria em estado puro.

Não fosse suficiente a densidade com que submergimos neste policial, a qualidade dos seus atores (esta é a hora de Andrew Scott, a nova coqueluche do cinema mundial e o grande esquecido dos Óscares do ano passado), ou as músicas italianas dos anos 50, Ripley já era absolutamente imperdível pela sua esplendorosa fotografia a preto e branco, não há uma única cena que não seja de cortar a respiração, todo o requinte italiano dos anos 60, a atenção máxima em todos os detalhes, o autocarro que serpenteia na costa acidentada de Atrani, os Caravaggios e as lojas velhas de Nápoles, os Fiats nas calçadas empedradas de Roma, os sapatos Ferragamo, os cinzeiros, as villas, tudo e tudo e tudo – se eu pudesse ser turista apenas num único sítio seria certamente nesta Itália de Ripley.

Na Netflix.

18
Mar24

Das séries de que gosto - FEUD: Capote vs The Swans

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Feud: Capote vs The Swans, a nova série de Ryan Murphyé aparentemente só uma história de fofocas e mexericos da alta-roda nova-iorquina dos anos 60 e 70, mas é bem mais do que isso, é a história de Truman Capote, acabadinho de vencer o Nobel da literatura com ‘A Sangue Frio’ e alvo de todas as atenções mediáticas e sociais, o bobo da corte gay, viperino e desbragado, que todas as socialites disputam para o ter ao seu lado, um mundo onde se toma banho com Don Perignon e os lençóis são encomendados em Paris quando se vai aos desfiles da Givenchy ou Chanel, mas quando Capote resolve pôr a nu os podres das suas amigas e inimigas, as Swans, passamos a ter um retrato surpreendentemente sensível da solidão encharcada em cigarros e vinhos caros, um olhar triste de mulheres absolutamente deslumbrantes e intocáveis que são mal tratadas e depois tratam as outras pessoas igualmente mal, personagens carismáticas, atenciosas e capazes de amar quem lhes é próximo, mas que são ao mesmo tempo desagradáveis e tortuosas, personagens que não são nem vilãs nem vítimas, não são só más nem só boazinhas, personagens que são complexas, que se tentam salvar a si e aos que lhes são queridos mas logo a seguir empurram o amigo ou a amiga para o fim do abismo, sendo que no final a maldade é derrotada por uma melancolia reconciliadora.

É verdade que adormeci sempre nos primeiros episódios, mas não atribuo esses bocejos ao facto da série ser chata, porque quando os vi de novo fiquei sempre preso ao enredo, acho que era só cansaço, e talvez por isso tenha achado a linha do tempo algo confusa, anda para trás, anda para a frente, às vezes não sabia a quantas andávamos, mas gostei muito de Capote vs Swans, se nada mais houvesse nos oito episódios realizados por Gus Van Sant, já valia a pena só para podermos apreciar uma cena que fosse de Naomi Watts e Tom Hollander, absolutamente geniais, e se tal ainda não bastasse há ainda Chloé Sevigny, Diane Lane, Calista Flockhart (as mexidas que fez na cara não lhe fizeram bem, que saudades da Ally McBeal), Jessica Lange e Demi Moore, tudo isto servido em bandejas de luxo e ostentação.

Na HBO.

 

26
Jan24

Das séries que eu venero - The Crown

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Falta-me ver o último episódio da sexta e última temporada de The Crown, quando o vir será o fim desta série absolutamente memorável, das melhores de sempre, restar-me-á apenas o prazer de poder revê-la muitas vezes.

The Crown é antes demais um tratado de história e de cidadania, devia ser estudada nas escolas, o que todos nós aprendemos sobre esta democracia absolutamente fundadora das nossas democracias ocidentais, apesar do tom cor-de-rosa que são as vidas dos príncipes e princesas, na minha opinião, oferecendo-nos também esse lado faustoso das festas, salões e mexericos, The Crown foi antes de tudo uma aula de história, sobretudo da britânica mas não só, sem descurar este lado mais voyeurístico, que quase todos nós temos, de nos deixar entrar na família real e assim aumentarmos um pouco mais os créditos de simpatia que Isabel II já nos merecia.

Se tudo em The Crown roça a perfeição, os cenários, a música, o genérico, os candelabros, toda a pompa, há algo que é francamente estarrecedor, o imenso comboio de atores geniais, consagrados, conhecidos, em ascensão ou ilustres desconhecidos, algo nunca visto, diria eu.

Esta última temporada saiu um pouco fora de pé, deixou um pouco de lado o rigor histórico das temporadas anteriores (apesar dos créditos não nos deixarem esquecer que os factos são apenas levemente inspirados em factos reais) e enveredou mais pelo lado gossip, da suposição, do que se imagina, da fantasia, dos sonhos, e isso causou-me alguma estranheza e resistência, mas por outro lado construiu nas entrelinhas várias camadas para nós próprios reconstituirmos a história que mais nos convém – esta cena, em que logo após a sua morte Diana aparece como fantasma ao príncipe Carlos, é bem exemplo disso, e é uma das minhas cenas preferidas de todas as temporadas, a fragilidade, o desamparo, a graça, a subtileza da dor que Dominic Charles West e Elizabeth Diana Debicki nos oferecem é qualquer coisa de outro mundo (Debicki é mesmo uma das rainhas maiores do cinema).

 

20
Out23

Das séries que eu vejo - Sex Education

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Ao contrário do que o título indica, não me parece que Sex Education, que chega agora ao fim com a quarta temporada, pretenda educar - não duvidando que muitos espetadores, novos ou velhos, se sintam mais informados ao ver a série -, mas simplesmente entreter e desmistificar as várias nuances da sexualidade, e nisso Sex Education foi muito bem sucedida, sem dúvida que é bastante entertaining e que deve ter arejado um pouco algumas cabeças mais confusas ou preconceituosas.

Quanto a mim, Sex Education peca pelo excesso de positivismo e bondade, somos todos bonzinhos, praticantes de ioga e incapazes de qualquer coscuvilhice, e por querer incluir na história toda a agenda dos temas sociais que hoje importam discutir, a igualdade, a intolerância, o bullying, o abuso ou agressão sexual, o preconceito religioso, a saúde mental, a violência no namoro, todas os temas LGBTQIAP+ (fui ao Google garantir que não me escapava nenhuma letra, admito), parece que os argumentistas não quiseram deixar nada de fora, mas ainda assim é uma belíssima série, com personagens muito interessantes e excelentes atores e atrizes (sou fã de Emma Mckey, a Maeve), que sem moralismos descomplica o sexo e nos recorda algo que na puberdade nem sempre é fácil, tudo está bem quando temos alguém com quem partilhar ou conversar.

Na Netflix.

 

 

09
Out23

Das séries de que gosto - A rapariga da Cabana

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Thriller policial alemão de seis episódios, sobre um rapto e cativeiro durante 13 anos, que queremos ver compulsivamente, em que temos muitas dúvidas e teorias mas estamos sempre a ser surpreendidos, sem nunca apanharmos qualquer incoerência na história. Muito bom. Quer a personagem da menina (Hannah), quer a pequena atriz (Naila Schuberth) que a representa, são absolutamente notáveis.

A Rapariga da Cabana (Liebes Kind, no original), na Netflix.

 

26
Set23

Das séries de que gosto - Esterno Notte

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Numa das melhores séries do último ano fala-se italiano, Esterno Notte, um tratado de história e política transalpina dos finais dos anos 70 com o rapto e assassinato de Aldo Moro, a par de um retrato íntimo de algumas das pessoas que mais sofreram, emocional ou intelectualmente, com este rapto, o próprio Moro, a esposa Noretta, o papa amigo Paulo VI, o então ministro do interior Francesco Cossiga e dois dos raptores.

O caso Moro é uma espécie de caso Camarate italiano, ainda hoje se discute quem é que efetivamente foi o mandante daquele sequestro, terão sido os americanos, os comunistas, o próprio governo, mas Marco Bellocchio (o realizador) não está muito interessado em falar-nos de teorias de conspiração, conta-nos antes a história que se lê nos livros, a que o grupo revolucionário outrora comunista, Brigadas Vermelhas, à procura de um grito ideológico e reconhecimento político, decide raptar o ex primeiro-ministro, aquele que deveria ser o futuro presidente da república e era à data o presidente do maior partido no poder desde a queda do Duce, o Democracia Cristã, um partido conservador e católico, que venceu todas as eleições legislativas de 1946 a 1992, um partido arreigadamente anticomunista com quem Moro estava prestes a estabelecer uma primeira e inédita aliança, aliança essa que assustava e muito os seus correligionários e amigos no partido, nomeadamente o então chefe do Governo Giulio Andreotti, que, por estratégia e interesse pessoal, desistem de o resgatar e abandonam-no às mãos dos brigadistas sedentos de sangue e da tão desejada propaganda.

Bellocchio toca assim numa ferida ainda por cicatrizar da sociedade italiana, lembrando-nos que os políticos humanistas, verticais e defensores da causa pública (que os há), têm o seu percurso armadilhado por um sistema onde a transparência e o interesse nacional, até a própria amizade, vergam perante a luta de poder, de quem governa e de quem aspira a vir a governar, não há ideais, mesmo os mais revolucionários e brigadistas, que não esmoreçam com o perfume do poder, mas ‘Exterior Noite’ é sobretudo o sofrimento, a angústia, o medo e a dúvida destas personagens durante os 55 dias que duraram o sequestro.

Belíssima série, na plataforma Filmin.

 

22
Set23

Das séries que eu vejo - Painkiller

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Não consigo dizer que gostei muito porque a realidade que retrata de forma contundente é muito perturbadora, a tragédia nos anos 90 dos analgésicos opióides nos EUA, como o Oxycontin, e a procura criminosa do lucro a qualquer preço, quer de famílias milionárias como a benemérita Sackler, quer do Zé Povinho que quer andar de Porsche ou simplesmente pagar as contas, mas o bom cinema também passa em séries como Painkiller, muito boa. Na Netflix.

 

10
Jun23

Das séries de que gosto - Rabo de Peixe

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Entretenimento mainstream com muita pinta, com muita qualidade, ali a brincar entre o crime, a comédia, o romance e a crónica social, ganda nível.

Tirando o erro de casting Salvador Martinha, os atores estão todos muitíssimo bem, Afonso Pimental, Albano Jerónimo, Kelly Balley, Dinarte de Freitas (uau), Pêpe Rapazote, Luísa Cruz, Adriano Carvalho , e todos os outros, mas tenho que deixar um grande elogio aos, para mim quase desconhecidos, quatro fantásticos protagonistas: André Leitão, Rodrigo Tomás, José Condessa e Helena Caldeira!!!

Muito merecido o sucesso internacional que está a ter, muitos parabéns.

 

16
Mai23

Das séries de que gosto - Succession

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Sabem quando comemos um gelado ou sobremesa bem devagar para podermos saborear mais tempo? Sou eu a ver Succession, para durar mais tempo de tão bom que é - limpou os prémios todos nas três primeiras temporadas, e por mim também os limpava na quarta, e última, é uma série fenomenal.

Um tratado, no mundo da alta roda dos negócios, em que todos os diálogos são farpas afiadíssimas sobre sacanice, manipulação, dor de corno, com grandes doses de humor, perversão, culpa, e com, muito espaçadamente, laivos de sedução, sentimentos de família e de quem ainda tem o coração no sítio, tudo isto em cenários da alta aristocracia nova-iorquina ou sítios deslumbrantes como as montanhas e glaciares da Noruega.

Todas as personagens/atores são fantásticos, apetecia-me destacar a filha Shiv, a mais inteligente de todos, mas depois lembro-me do filho Roman, o mais fritado dos cornos, ou o filho Kendall, o mais inseguro, ou o pai Roy, o maléfico-mor, ou o ambicioso burro que não é assim tão burro do genro, ou o cromo do sobrinho, ou a eficiente CEO Gerri, ou ou ou ...

Super fã. Na HBO.

15
Abr23

Das séries de que gosto - Rain Dogs

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Série inglesa de oito episódios, meio comédia meio dramática, sobre amores incondicionais e pouco convencionais, que duma forma totalmente despudorada mistura o desenrascanço duma pobreza extrema com uma aristocracia decadente, com vidas muito desajustadas mas sempre com a dignidade e o coração no sítio certo, mesmo quando tens de sacanear, prostituir-te ou fazer o que tiveres de fazer para sobreviver. A dupla Daisy May Cooper e Jack Farthing é muito boa. A série é muito boa. Na HBO.

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